Nº 252 - ANO 18 - SETEMBRO DE 2004
 
Museu do Charque - Blau Souza*
 
Com ápice na segunda metade do século XIX, a atividade das charqueadas enriqueceu a campanha gaúcha e os charqueadores, sobretudo na cidade de Pelotas. Antes que todos os outros, os pelotenses fizeram e importaram arte, construíram teatros e enviaram seus filhos para se tornarem doutores nas primeiras faculdades do país ou no exterior, principalmente em Portugal e na França. Por isso, nada mais natural que surgisse em Pelotas o Museu do Charque e já com algum atraso, segundo disse Carlos Reverbel ao saber da novidade. Nasceu de idéia do amigo José Antônio Mazza Leite, veterinário e homem múltiplo da cultura pelotense, compartilhada com a arquiteta Ediolanda Liedke no ano de 1993. Já em 7 de julho de 1995 houve a primeira exposição e o museu passou a atuar de maneira itinerante, levando a muitos colégios o seu precioso acervo, numa concepção da programadora cultural Daniela Pieper e como parte de parceria estabelecida com a Universidade Federal de Pelotas. O museu já era parceiro do Instituto Histórico e Geográfico de Pelotas e a partir deste ano de 2004 passou a ter sede numa tradicional charqueada, a Santa Rita, sem perder sua vocação itinerante junto a escolas da cidade e da região.
A colaboração do artista plástico Danúbio Gonçalves, consagrado autor da série de xilogravuras Xarqueadas, foi decisiva para a afirmação do museu. Danúbio lembrou-se do tempo em que acompanhava o abate das tropas de seu pai na Charqueada São Domingos em Bagé e abriu seus cadernos cheios de desenhos e anotações em que registrou o cotidiano dos trabalhadores pobres, mal vestidos, descalços e submetidos a uma rotina de violência e insalubridade. Neles, desenhou animais recém-abatidos sendo puxados na zorra, coreados e submetidos aos matambreiros, manteiros, tiradores de carretilhas, lingüeiros, picadores e tantos outros ocupados nas ações de carnear, carregar e salgar. Nem os guris carregando cabeças sangrentas ou jogando água sobre a cancha fugiram à observação do artista. Os cadernos de ensaios de Danúbio, que antecederam a série famosa, deram outra dimensão ao museu. Em abril do corrente ano, os porto-alegrenses conheceram o acervo da instituição que permaneceu por um mês exposto no Memorial do Rio Grande do Sul.
No dia 13 de maio de 2004 o Museu do Charque e o Centro Mercosul da UFPEL patrocinaram o seminário Charqueadas e Saladeiros, que contou com a presença do uruguaio Fernando O. Assunção, grande conhecedor do pampa e do gaúcho em todos os seus aspectos. Autor de dezenas de livros, ele fez brilhante conferência e nela deixou bem marcados alguns aspectos pouco conhecidos da produção do charque no pampa. Destacou o valor das pesquisas do Dr. Paulo Xavier ao elucidar o pioneirismo dos sul-rio-grandenses na produção de carne salgada antes de 1740 em local correspondente à divisa dos atuais municípios de Osório e Mostardas. As pesquisas do Dr. Paulo Xavier foram fundamentais para estabelecer esse pioneirismo tanto em relação aos vizinhos do Prata quanto no que se refere ao estabelecimento de José Pinto Martins junto do Arroio Pelotas. Os saladeiros passaram a existir no Uruguai por volta de 1780 e só mais tarde na Argentina. Fernando Assunção também reconheceu não ter havido no Uruguai e na Argentina o registro artístico da atividade saladeril como ocorreu entre nós. Esse fato torna ainda maior a contribuição de Danúbio Gonçalves, integrante do chamado Grupo de Gravura de Bagé, que se abeberou nas lembranças da infância e, certamente, na convivência com obras como a de Pedro Wayne. Na busca de informações sobre o funcionamento das antigas charqueadas, o museu tem acolhido colaborações as mais diversas e que podem inspirar ações inteligentes quando mais conhecidas e estudadas.

* Médico e escritor
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