Nº 252 - ANO 18 - SETEMBRO DE 2004
 
Tropeando - Fernando Adauto
 
Usa-se a palavra crioulo ou ‘criollo’ em espanhol para denominar os indivíduos nascidos nas colônias européias de além-mar. Na Argentina e no Uruguai chamavam-se os filhos dos espanhóis aqui nascidos e aquerenciados. No Brasil se usou muito para identificar os filhos dos escravos africanos. Na pecuária o tratamento abrangeu todas as espécies, principalmente os animais adaptados que pela bondade das pasturas do Pampa ficaram selvagens. Vacuns e cavalos ibéricos, sem sangue árabe, e raças de tiro européias, introduzidas pelos colonizadores a partir de 1536, pastaram livremente em nossos campos até o século dezenove.
O cavalo crioulo mistura-se com a história do Rio Grande do Sul e dos países do Prata. Faz parte do gauchismo, está impregnado em nossa cultura, fez a diferença na economia das estâncias e definiu a história nas estratégias de guerra. Foi o cavalo do índio, do negro na Guerra dos Farrapos. Libertou Buenos Aires da invasão inglesa, resistiu ao império por dez anos na Revolução Farroupilha e foi com o mesmo cavalo, no mesmo ambiente, que Caxias assinou a paz. Com o fim do ciclo do couro, especialmente com os frigoríficos ingleses, o gado crioulo foi absorvido, foi cruzado principalmente com raças britânicas mais adequadas à produção de carne de qualidade e preferida por aquelas indústrias. Os estancieiros mais avançados buscavam na época cavalos mais especializados, tiro leve para tração, puro sangue inglês para as carreiras, Hackney, árabes e outros. O exército, grande comprador, também segregava o crioulo. Buscava cavalos de maior alçada, no mínimo um metro e cinqüenta. O cavalo crioulo sobreviveu com os índios, com os tropeiros, nas estâncias que não conseguiram substituir a rusticidade e aptidão no trabalho com o gado. Durante muitos anos o crioulo foi depreciado, era cavalo de pobre, de teatinos e changadores.
No início do século passado começou a seleção do cavalo crioulo, vários pecuaristas como Emílio Solanet na Argentina e outros buscaram resgatar essa raça ágil, leve, adaptada ao nosso meio, descendente de cavalos bérberes forjados em séculos de lutas entre mouros e cristãos. Foram criadas as associações de raça e os registros genealógicos. Mas foi no final do século passado com as provas funcionais que o nosso cavalo ganhou destaque e se valorizou. Deixou de ser o cavalo de estância para ser o cavalo de todos. Andar a cavalo faz bem à saúde, valoriza o ser humano, dá sensação de liberdade e para os gaúchos faz parte da tradição. Muitos vendem o campo, o gado e levam o cavalo para a cidade, ou arrumam onde deixar. É comum na periferia das cidades ver gaúchos que já perderam as bombachas, cabresteando pingos não se sabe para onde. Recentemente a Emater lançou um programa de ‘pecuária familiar’. O reclame traz alguns poucos bovinos arreados por dois ginetes a cavalo. Deve ser o único lugar do mundo onde a pequena propriedade usa o cavalo para o trabalho com gado. É cultural e saudável.
Crioulo ficou só o cavalo. Cavalo que simboliza uma pátria criada por americanos de todas as raças, orgulhosos de um dia também terem sido crioulos.
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