Nº 291 - ANO 21 - DEZEMBRO DE 2007
 
Tordo Amarillo - Blau Souza*
 
“Se queres construir um barco, não comeces por buscar madeira, cortar tábuas ou distribuir o trabalho. Primeiro há que evocar nos homens o desejo pelo mar amplo e livre”.
A. S. Exupéry
Foram dias muito interessantes os passados em Bagé para participar do 1º Encontro de Criadores de Gado em Pastagem Natural nos Pampas. Estancieiros, ecologistas e amantes dos passarinhos conviveram muito bem até por que, dentro de cada um de nós, essas condições já existem ou estão guardadas como tesouro potencial na busca da felicidade. Campo, passarinhos e pecuária se relacionam de forma harmônica e necessitam ser entendidos e respeitados se quisermos preservar o que resta de pampa. O desafio é grande, mas quando se reúnem rio-grandenses, argentinos, uruguaios e paraguaios para tratar do assunto a esperança se fortalece e se brasileiros de outros estados, Banco Mundial e dezenas de entidades apóiam o evento o caldo começa a engrossar...
A figura símbolo do encontro era a de um passarinho ameaçado de extinção: o Tordo Amarillo, conhecido entre nós como Veste Amarela. Ele faz parte do Bioma Pampa, do campo, de los pastizales. Faz parte de uma biodiversidade desafiada, não é de floresta, habita os campos e procura banhados com caraguatá para fazer seus ninhos. Amarelo, tem asas e rabo negros, parecido com o Dragão do qual difere por ter a cabeça também amarela. Pois não é que o tal passarinho está a perigo? Estimam que haja apenas sete mil exemplares no mundo. Todavia, na costura para realizar o encontro, o Fernando Adauto levou até Lavras do Sul, ornitólogos da BirdLife e de outras entidades e eles se emocionaram ao encontrar um bando com mais de cem Tordos Amarillos na Estância São Norberto, logo ali, misturados às vacas. Se a preservação das espécies ameaçadas dependesse de reservas mantidas pelo Estado estaria mal pensada, até por que elas ocupam áreas diminutas. A solução, reconhecida pelos técnicos, é contar com o auxílio dos fazendeiros, dos proprietários dos campos, habituados à natureza e à conservação das pastagens para a pecuária.
O que ganham os fazendeiros ao cuidar dos passarinhos? O respeito ainda maior da comunidade consciente da importância da conservação do meio ambiente, além de um preço diferenciado para seus produtos. Uma das maneiras para atingir consumidores mais diferenciados será, por exemplo, exibir na embalagem da carne selos de qualidade e comprobatórios de que o produtor daquela carne faz parte de um sistema preservador da natureza, da biodiversidade, reconhecido pela Bird Life. Será um complemento aos dados já conhecidos nos animais cadastrados, prontos para competir em qualquer mercado. Tudo na certeza de que é mais valorizada pelo europeu, e pelo consumidor exigente de qualquer lugar, a carne do boi sadio, produzido no campo, debaixo da luz do sol, ingerindo pasto e bebendo água de sanga. Se isso já está sendo feito, dentro da estância, é muito importante que seja marqueteado e que a fiscalização garanta a qualidade da carne a ser consumida. O mercado se encarregará de selecionar produtos e os frigoríficos terão de disputar a preferência de empresários rurais, que sabem muito bem o que estão produzindo e que se orgulham disso.
Estaremos sendo visionários? Será possível obter, consumir e exportar de forma diferenciada essa carne de qualidade superior? Claro que é possível e nisso estaremos apenas agregando valores ao nosso produto tradicional, ressaltando suas virtudes como fazem as grandes feiras de alimentos, que vendem ecologia, respeito à natureza, bem estar animal e belas paisagens rurais. Quando, em nosso meio, já se pode adquirir carne, cujo produtor e demais dados do animal abatido constem na identificação eletrônica da embalagem, podemos ser otimistas, optar por roçadas menos radicais na periferia dos banhados e participar da preservação efetiva do pampa, da sua biodiversidade, de seus passarinhos.

* Médico e escritor
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