Nº 311 - ANO 23 - AGOSTO DE 2009
 
Blau Souza* Alemães, brummers e novo livro
 
Falar sobre o desempenho dos imigrantes alemães nos vales dos rios formadores do Guaíba ou da sua importância na Porto Alegre dos séculos XIX ou XX será repetir coisas já ditas e dados estatísticos. Eles estão na origem de todos os clubes sociais surgidos no período, no comércio, na indústria e na construção de sobrados e mansões que fizeram de Porto Alegre a bela terceira capital estadual no Brasil. As competições de remo e os veleiros a singrar o Guaíba sempre tiveram tudo a ver com eles e seus descendentes. No futebol, clubes eram alemães até no nome e no glorioso Grêmio dos primeiros tempos havia jogadores importados e as ordens eram dadas na língua do Goethe. Na cultura, o valor dos germânicos é insubstituível. Apesar de suas vivências essencialmente urbanas, ninguém entendeu tão bem o gaúcho e seu folclore quanto Augusto Meyer. Outro descendente de alemães é incomparável na linha campeira e da tradição gaúcha: Jaime Caetano Braum. Os exemplos são muitos e falam da perfeita sintonia dos alemães e seus descendentes com a terra e os demais habitantes do Rio Grande do Sul.
Pretendo falar de alemães que se embrenharam pelo pampa e assumiram a identidade gaúcha de forma muito autêntica. Habituei-me a ouvir referências desairosas aos brummers, ou resmungões, que foram contratados na Europa para lutar contra o tirano Rosas por volta de 1850. Teriam sido mal selecionados e sua conduta nem sempre motivou elogios. Pois bem aí, dentre eles, há exemplos de vidas ilustres, cujo número vai aumentando à medida que se conhece mais sobre a construção do Rio Grande. O brummer Carlos Von Koseritz encarnou mais do que ninguém os esforços de progresso e integração. Visionário e muito ativo, editou jornais em alemão e em português, foi político no império e vítima do radicalismo do início da república em nosso Estado. Também foi brummer, Carlos Jansen, pioneiro do periodismo literário em Porto Alegre e autor de O Patuá, novela que o torna um dos precursores do nosso regionalismo. Já escrevi sobre outro resmungão, Hermann Rudolf Wendrodt, que considero o Debret do Rio Grande do Sul. Suas pinturas retratam tudo o que ocorria no Rio Grande em meados do século XIX. Percorreu todo o Estado e até se instalou em Lavras na busca pelo ouro. Sua conduta perdulária o levou a fim incerto em Buenos Aires, mas ficou sua arte graças à proficiência de D. Pedro II. O colega Fernando Neubarth através de uma lanterna de acetileno imortalizou antepassado brummer que se transformou em médico. Com ele, a luminosidade de uma lanterna mágica encheu as noites da Taquara do Mundo Novo na ânsia de assistir doentes e desvalidos. Virou lenda...
Confesso que meu interesse pelo destino dos soldados alemães buscados na Europa pelo Império do Brasil se enriqueceu com o surgimento do livro A patrulha dos sete João. Seu autor é o jornalista Euclides Torres, que, após trabalhar em Brasília e outras capitais, voltou aos pagos em Caçapava do Sul. Ele analisa a política e o caudilhismo na América Latina e narra com emoção a vida e a morte de seu bisavô o sargento brummer Joseph Wilt Meurers. A fonte principal de informações é um diário que Joseph passou a escrever tão logo dominou o português. Ele passou de marceneiro a comerciante e de Joseph Meurers a José de Moraes. Instalou-se na coxilha de São José, próximo de Caçapava e desenvolveu chácara e casa comercial de importância regional, rica em produtos importados. Foi líder federalista e se orgulhava de hospedar o conselheiro Gaspar Silveira Martins quando este passava pela região. Sua prosperidade e o engajamento político despertaram ódios em plena Revolução de 1893. Forçado a esconder-se, foi traído e aprisionado por uma patrulha composta por sete homens, todos eles atendendo por João. Terminou supliciado e morto. Ao final, cada João a seu tempo, todos morreram de forma violenta. O livro agrada e enriquece...

* Médico e escritor
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