Nº 311 - ANO 23 - AGOSTO DE 2009
 
Fernado Adauto Tropeando
 
Nos tempos de guri, nas férias escolares, várias tropeadas o tio Nemo nos proporcionou entre os campos do Sobrado, em Lavras do Sul, e a Guajuvira, em São Gabriel, hoje Santa Margarida do Sul. Os dois ou três dias de tropa, conforme o gado ou o tempo, foram muito educativos. Um velho campeiro sempre acompanhava a gurizada barulhenta e impulsiva – quase sempre o Silvio ou o Gringo, antigos e experientes tropeiros. Um aprendizado simples que se aprendeu fazendo. O espeto se crava no chão do lado do vento, a carne não pega fumaça, nem sapeca com a labareda, e as brasas não queimam o espeto. Dormindo nos arreios ao relento tem que virar a cabeça para o lado do vento “pra não melar”. Algum animal extraviado da tropa tem que vir com uma ponta de gado, “solito”, ou no laço se “acalambra”. O arreador poupa a boca do cavalo e um fiador alivia a culatra da tropa. Um cavalo de tiro, a cabresto, se estropia mais que encilhado. Com chuva guasqueada se vira a gola do poncho para o outro lado. Somente com sinuelo se cruza ponte, e muitas outras coisas foram aprendidas sem se dar conta, dentro de princípios imutáveis de homens simples que passaram uma vida a cavalo, lidando com o gado e enfrentando o tempo. Muitas histórias rendiam as tropeadas. As empulhações, os cagaços recebidos e as maturrangagens serviam à troça do galpão, predominando sobre as boas ações nas rodas de mate. Todos apreendiam a se cuidar; a flauta era certa.
No final de uma tropeada, na Guajuvira, churrasqueando, encontramos um pitoresco personagem da região, o seu Chico Verão. Negro miúdo, magrinho, avançado em anos, com os olhos sempre sorrindo, irradiava simpatia e atraia a atenção de todos. Era o rezador dos velórios da redondeza, não tinha nenhum dente e, segundo Bernardo, o capataz, as rezas eram mais sopradas que faladas. Terminado o churrasco, lembrei que na mala de garupa tinha uns atados de rapadura e pensei no seu Chico sem dente se lambuzando, chupando rapadura. Com a cumplicidade do tio Nemo e do Jacques, trouxe as rapaduras enroladas em palha em atados de três ou quatro. Todos aceitaram. Seu Chico Verão, bem na minha frente, tirou a palha da rapadura, tirou a faca e, como quem desfia fumo em rama, com a maior naturalidade desfiava a rapadura, fazia um montinho na concha da mão e certeiramente atirava para a boca. Sem baba, brilhando os olhos com a inesperada doçura. Meu tio e os outros companheiros, cientes da minha picardia, riam muito do meu desapontamento. O velho faceiro também ria sem entender.
A forma de comer uma rapadura-puxa, melada e, como diz o nome, muito dura, foi a derradeira lição desta tropeada. Um dos maiores inimigos do homem é uma previsão equivocada. Achar que os outros vão fazer o que a gente faz ou sabe fazer é um erro que às vezes custa muito caro. O velho, na brevidade de um churrasco, nos deu uma aula de vida. Feliz, sorridente, satisfeito com o que fazia, sentia-se útil. Inteligente, com liderança, conseguia a atenção de todos, e nem com os dentes se importava.
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