Nº 323 - ANO 24 - AGOSTO DE 2010
 
Blau Souza* - A Guerra dos Sete Anos e a América do Sul
 
Nossas guerras ganham um relevo especial quando buscamos suas raízes na Europa e em outras paragens. O que teria sido um ensaio de conflagração mundial, a chamada Guerra dos Sete Anos, envolveu praticamente toda a Europa e teve reflexos nas colônias dos países europeus pelo mundo afora entre 1756 e 1763. A Prússia de Frederico II, filósofo, músico e grande guerreiro, desafiou o império austríaco dos Habsburgo. Ficaram do lado dos austríacos: a França de Luís XV, a Rússia da czarina Elisabeth, a Suécia, a Saxônia e outros mais. Do lado da Prússia, berço da Alemanha, foi decisiva a participação da Inglaterra, bem como da Rússia depois que Pedro, o grande, assumiu o trono e se juntou ao seu ídolo Frederico II. De início, os franceses e austríacos obtiveram importantes vitórias e o rei Luís XV procurou em 1761 estabelecer um pacto de família envolvendo todos os países governados pelos Bourbon e que deveriam guerrear do mesmo lado. Este pacto incluiria: França, Espanha, Portugal, Nápoles e Parma. Portugal, entretanto, não desejava participar da guerra e ganhava tempo. Diante de um ultimato das cortes francesa e espanhola, teve de tomar posição: colocou-se ao lado da Inglaterra, com a qual já tinha um abrangente acordo comercial desde 1703. Isso provocou a pronta invasão de Portugal pelas tropas espanholas. O marquês de Pombal, todo-poderoso ministro do rei D. José I, procurou revitalizar o exército português, cujos comandos eram ocupados por oficiais ingleses. Contratou o conde de Lippe, que morava em Londres, para organizar um exército forte, disciplinado, capaz de bem defender as fronteiras de Portugal e das colônias ultramarinas. Diante da insaciabilidade inglesa, Portugal e Espanha fizeram um acordo para cessar as hostilidades em 1762 e que implicava na volta às fronteiras de antes da guerra. A América do Norte foi muito alterada por esta guerra, pois França e Espanha perderam territórios para os ingleses. Quebec, Montreal, a região dos grandes lagos, a Louisiana e a Califórnia trocaram de donos. Na América do Sul as coisas evoluíram com a invasão espanhola do Rio Grande e o descumprimento de acordos. Dom Pedro de Cevallos, comandante de Buenos Aires, era um militar de grande valor e que defendia a vigência do Tratado de Tordesilhas (1494) após a suspensão do Tratado de Madrid (1750). Aproveitou-se da guerra na Europa para invadir o Rio Grande de São Pedro com um exército de seis mil homens. Na época, as forças portuguesas não chegavam a dois mil soldados para defesa de todo o território da Capitania de São Pedro. Cevallos tomou a Colônia do Sacramento, após cerco prolongado, em 1760. Avançou com seus homens pelo litoral, enquanto o comandante das Missões, D. Antônio Cattani, deveria marchar com forças regulares e mais dois mil índios para conquistar Rio Pardo. Este contingente foi desarvorado pelo capitão Francisco Pinto Bandeira, de surpresa, muito antes que se aproximasse de Rio Pardo. Isso enfureceu Cevallos, que conquistou sem luta a fortaleza de Santa Teresa, derrotou os poucos defensores de São Miguel e chegou com facilidade a Rio Grande, desamparada pelo capitão-general Ignácio Elói Madureira, que fugiu para Viamão levando tudo quanto conseguira juntar. Cevallos tomou posse de Rio Grande, avançou sobre São José do Norte e prosseguiu litoral acima até ser forçado a reconhecer o Tratado de Paris que pusera fim à guerra entre Espanha e Portugal. Sentindo-se forte, considerou que não conquistara terras, já que elas eram espanholas pelo tratado que lhe convinha. Apenas devolveu a Colônia do Sacramento, que poderia retomar quando quisesse. Conservou tudo o mais e o controle de rios e lagoas interiores, pois dominava seu desaguadouro. Só em 1776 os portugueses retomaram o território perdido e o fizeram com a ajuda de ativos participantes da Guerra dos Sete Anos. Quem foram eles? José Marcelino de Figueiredo, o governante, o organizador na paz e na guerra, e o general Böhm, um dos auxiliares do Conde de Lippe e que foi mandado para coordenar a expulsão dos espanhóis. Mas esta já é uma outra história...
* Médico e escritor
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