Nº 323 - ANO 24 - AGOSTO DE 2010
 
Tropendo - Fernando Adauto
 
Não sei se é a distância do cavalo ou um simples cacoete campeiro, mas embretado na cidade passei a comparar objetos de uso pessoal com cavalos. O Gol branco, chamava de petiço tordilho. Pela internet, comprei um notebook, que veio por uma transportadora. Com curiosidade retirei das caixas, e ele surgiu preto lustroso somente com o detalhe da marca prateado. Preto com focinho branco é picaço, sentenciei, batizando a nova aquisição. Passei uma semana ajeitando o picaço e não consegui que formasse na rede da Farsul. Apelei para nossos técnicos da área, achando que tinha comprado um baldoso, não obedecia aos comandos. Comprei um Windows 7- Home e, para entrar em rede, tinha que ser Professional. Nosso técnico, didaticamente, adotou a terminologia campeira e foi me explicando. Vamos ter que desencilhar, salvar todos os arquivos em um HD e retirar todos os atuais programas e configurações. Em pêlo, encilhamos de novo. O Windows é a base de tudo, é como se fosse o xergão, retiramos o Home agora e colocamos o Professional. E, assim como se encilha um cavalo, o Álvaro foi colocando, um a um, todos os programas. Por último, colocou um CD que veio com o computador e me explicou: este tem as configurações desta máquina e ajusta todos os programas instalados, como se estivéssemos acertando a cabeçada, os látegos, a peiteira e outros aperos às medidas do Picaço. O flete ficou esbarrando e virando no rastro - o bom é que já vem domado e campeiro, qualquer maturrangagem é por nossa conta.
Minha filha, em idade pré-escolar, brincava com um menino da mesma idade, neto de meu vizinho do lado. Um dia o velho morreu. O inevitável acontecimento do velório, ao lado, impressionou a guria. Pai, o que acontece quando a gente morre? De forma simples e objetiva, tentei explicar de acordo com a sua pouca idade: “Todo mundo tem corpo e alma”, expliquei. “O corpo fica na terra e é enterrado, e a alma vai para o céu, lá onde está Deus e os anjos”. Ficou pensando. Chegando à estância que administrava em Bagé, fui conversar com o caseiro que estava carneando uma ovelha, acompanhado de minha filha. A guria pela mão a tudo observava e, combinando várias coisas, me demorei na conversa. Terminando a carneada, o caseiro colocou a carne em um carrinho e foi estaquear o pelego em um estaqueador coberto, muito alto, “pra mode os cachorros”. Gritando faceira, a guria exclamou: “Pai, entendi tudo - a gente morre, deixa a carne aqui e o pelego vai para o céu”. É isso mesmo, concordei. Radiante, puxando-me pela mão, voltou afobada para contar à mãe. Sozinha, resolvera o problema.
Dias destes, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, comparava a taxa Selic com a torneira de água quente. Regula a temperatura do banho, da mesma forma que a taxa regula o mercado. Tem um ponto certo e a regulagem é muito sensível. O banho pode ficar quente ou frio, da mesma forma que a Selic pode causar inflação ou recessão.
As metáforas e as comparações são usadas desde o início da civilização - e as coisas mais simples até as mais complexas ganham entendimento. É a melhor forma de explicar aos que não têm conhecimento e aos que sabem, mas não compreendem.
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