Nº 379 - ANO 29 - ABRIL DE 2015
 
Aberta em Tupanciretã, colheita da soja irriga economia gaúcha
 
Os produtores gaúchos começaram a colher a safra de soja em 2015 animados com os resultados da lavoura e os preços no início da safra, mas preocupados com fatores como logística e custos futuros de produção. O Estado deve produzir cerca de 15 milhões de toneladas do grão neste ciclo. A abertura oficial da colheita foi no dia 28 de março, em Tupanciretã. “O esforço dos produtores deve ser compensado. Pelo menos até o presente momento, os resultados têm sido bons. Continuamos com problemas logísticos e queda nos preços internacionais, mas a alta do dólar e o ótimo desempenho das lavouras têm compensado”, avaliou o presidente do Sistema Farsul, Carlos Sperotto, que participou do evento.
A cotação média da soja terminou março em R$ 63,97, segundo a Emater. Já o dólar oscilava na casa dos R$ 3,20. Se isso contribui para a valorização do produto em reais, também traz preocupações relativas aos custos da próxima safra, que costumam variar conforme a moeda estrangeira (página x). “Estaremos avaliando os custos detalhadamente, de lupa, e observando os movimentos de nossos fornecedores”, disse Sperotto. Além da possibilidade de aumento no preço dos insumos, a próxima safra já terá alta nos custos devido ao aumento dos juros, na agropecuária e em outros setores da economia.
De acordo com a assessoria econômica do Sistema Farsul, os custos de produção devem crescer 7,8% na próxima safra, passando de R$ 1.659 para R$ 1.789 por hectare, assumindo produtividade média de 55 sacos de soja por hectare. A receita bruta deve se igualar ao custo operacional total - que ainda leva em conta o gasto com a terra, taxa de juros e valor de depreciação. Se na safra 2014/2015 o sojicultor deve lucrar R$ 408 por hectare, a estimativa para a próxima é de prejuízo de R$ 5. Apenas para pagar o desembolso total, o produtor deverá colher 54 sacos do grão.
A oitava edição da abertura da colheita do grão em Tuppanciretã contou com a presença do governador José Ivo Sartori. Ao ser recepcionado pelo prefeito do município anfitrião, Carlos Augusto Brum de Souza, ele destacou que o setor primário é a grande mola propulsora da economia gaúcha e brasileira e terá papel ainda mais decisivo neste ano de 2015. “Em toda minha trajetória política, nunca fui de ficar trancado em gabinete e não será diferente agora como governador. É aqui, na lavoura, próximo ao Rio Grande que dá certo, que venho buscar inspiração para nossa missão no governo. A cadeia produtiva da soja pode contar com a nossa parceria”, destacou Sartori, que esteve com o dirigente histórico da Farsul Camilo Cottens, que, prestes a completar 90 anos participava do evento.
Aproveitando a visita do governador, o presidente do Sindicato Rural de Tupanciretã, Belquer Ubirajara da Silva Lopes, apresentou a principal demanda da região: o asfaltamento da RST 392, trecho que liga a região das Missões ao município. Segundo ele, as melhorias encurtariam o caminho até o Superporto de Rio Grande, pois a carga toma caminhos alternativos e mais longos diante da más condições da estrada. “Apresentamos nossas demandas e o governador disse, com sinceridade, que não poderia atender a maior delas no momento”, conta Lopes, citando o déficit nas contas públicas amplamente divulgado pelo governo estadual. “Agradecemos que isso foi dito com simplicidade e honestidade, mas fica a nossa expectativa para que o Estado atenda ao pedido tão logo seja possível”. As demais solicitações foram segurança no campo e agilidade na obtenção de licenças ambientais, entre outras.
Segundo dados da Secretaria da Agricultura, o Rio Grande do Sul possui 5,1 milhões de hectares de área plantada com grãos. A falta de chuvas tem afetado lavouras na região das Missões e noroeste do Estado. Nas demais áreas, não houve relatos de adversidades climáticas mais significativas para a cultura. “O nosso papel é estimular o setor produtivo, a fim de proporcionar melhores condições para os homens e mulheres que tiram da terra o seu sustento. Novas tecnologias, máquinas e equipamentos modernos, assistência técnica e informação são ferramentas fundamentais para o crescimento”, destacou o secretário estadual da Agricultura e Pecuária, Ernani Polo.

Hidrovias
Produtores do Estado receberiam R$ 5,71 a mais por saco de soja se as condições logísticas do Rio Grande do Sul unissem transporte eficiente, interligado e baseado em hidrovias, afirma estudo da assessoria econômica do Sistema Farsul. Considerando que o Estado deve exportar 129,4 milhões de sacos de soja nessa safra, a perda dos agricultores por conta do frete foi de R$ 738,6 milhões somente em 2014/2015.
Hoje são gastos US$ 61,58 por tonelada para levar a carga do noroeste do Estado até o porto de Rio Grande, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Se as hidrovias fossem o principal meio de escoamento - como é nos Estados Unidos, com participação de 60% -, o valor cairia para R$ 23,53, uma redução de 62%. Seria o equivalente a aumentar a produtividade em quatro sacos por hectare de soja, com os mesmos custos de produção.
Para chegar ao número, a equipe do Sistema Farsul comparou as condições logísticas brasileiras com as dos Estados Unidos. Enquanto os brasileiros utilizam rodovias para transporte de 53% da produção de soja para exportação, os americanos optam por esse modal para apenas 5%. Por lá, quase dois terços da carga chega ao porto por hidrovias (60%), que conta ainda com um sistema integrado de ferrovias, por onde passam 35% da soja. “Queremos chamar a atenção para esse modelo que privilegia hidrovias”, afirma o economista do Sistema Farsul, Antonio da Luz, citando que apenas 11% da produção é escoada através delas no país.
Estima-se que o transporte hidroviário seja 44% e 84% mais barato do que o ferroviário e o rodoviário, respectivamente. No fim das contas, o escoamento é mais rápido por conta da maior capacidade de barcaças em comparação com caminhões - além de contribuir para o trânsito nas estradas brasileiras, reduzindo engarrafamentos, acidentes e emissão de poluentes, defende o estudo.
O potencial hidroviário brasileiro é, inclusive, superior ao dos Estados Unidos, segundo dados do Banco Mundial. Seria possível utilizar 50 mil quilômetros de hidrovias no Brasil - número menor apenas do que China, Rússia e União Europeia - mas se aproveita 28%, ou seja, 14 mil quilômetros. Os Estados Unidos tem capacidade para 41 mil quilômetros, 9 mil a menos, mas todos são usados regularmente, conforme a Agência Central de Inteligência (CIA).
Ao comparar os gastos por tonelada para cada quilômetro percorrido, os problemas de logística ficam evidentes. De acordo com o USDA, quando a soja parte de Minneapolis - cidade ao norte dos Estados Unidos localizada às margens do Rio Mississipi - em direção a Xangai, percorrendo 2,7 mil quilômetros, o gasto por tonelada para cada quilômetro percorrido é de R$ 0,11. Partindo do noroeste do Rio Grande do Sul, percorrendo 461 quilômetros, o custo é de R$ 0,31. Quase o triplo.
Essa defasagem leva em conta ainda a pressão sobre o sistema logístico que os Estados Unidos criaram a partir das 20 milhões de toneladas produzidas a mais em 2014, que favoreceram aumento do custo do transporte de 25% no último ano. Ou seja, em condições normais, o custo americano é ainda menor.
Analisando as perdas dos produtores de todo o Brasil, o preço da ineficiência chega a R$ 9,6 bilhões. “Além dessas perdas serem bastante significativas para a economia brasileira, elas têm crescido a uma taxa média de 6% ao ano”, aponta da Luz. Se as perdas continuarem crescendo a essa taxa, como ocorre nos últimos oito anos, o valor acumulado chegará a R$ 1,009 trilhão em 35 anos. “Isso quer dizer que, no mesmo prazo que o Brasil ganhará R$ 1 trilhão com o pré-sal, pelas estimativas da presidente, ele perderá valor equivalente com ineficiência logística”, compara.
O Brasil está na 65ª posição no Logistics Index Performance 2014, ranking do Banco Mundial que avalia, a cada dois anos, a qualidade logística de 160 países. Os americanos aparecem em 9º. Quem lidera é a Alemanha.

Superporto
Atenta às perdas do Estado e sobretudo do produtor gaúcho, a Farsul apresentou, em fevereiro, ações para melhorar a navegabilidade das hidrovias do Estado e otimizar a logística do Superporto de Rio Grande.
O trabalho, desenvolvido durante nove meses pela Federação ao lado de Fiergs, Fecomércio e operadores e usuários do porto, sugere dragagem e melhoria nas instalações e sinalizações ao longo das principais vias que ligam portos como o de Estrela ao Superporto de Rio Grande.
Para o Superporto, o grupo busca ampliar o calado do local e implantar um sistema moderno de gerenciamento de tráfego marítimo, entre outras medidas. O investimento do governo federal, com recursos já provisionados, é de R$ 180 milhões.

Rodovias
Apesar de o Brasil concentrar energias no transporte rodoviário, como mostra o estudo da Assessoria Econômica do Sistema Farsul, ele também está atrás dos americanos nesse quesito. Enquanto os EUA tem à disposição 6,6 milhões de quilômetros em rodovias, o Brasil apresenta 1,6 milhão, de acordo com o Banco Mundial. A diferença em área territorial não explica o fato: Estados Unidos e Brasil têm, respectivamente, 9,4 milhões e 8,5 milhões de quilômetros quadrados.
Além disso, a qualidade das estradas também decepciona. Segundo pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes de 2014, quase 79% das rodovias não são pavimentadas no país. Além disso, 62% dos 98,4 mil quilômetros das principais estradas são considerados regulares, ruins ou péssimas pelos brasileiros.
Conforme dados do estudo, o cenário é pior entre as rodovias de responsabilidade do poder público, ou seja, 81% do trecho analisado - para essas, apenas 30% são apontadas como boas ou ótimas. Em relação aos 19% concedidos à iniciativa privada, o número sobe para 74%.
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