Nº 402 - ANO 31 - MARÇO DE 2017
 
Colheita do arroz é aberta com fortes demandas do setor
 
Está aberta oficialmente a colheita do arroz, com expectativa de produção acima de 8,4 milhões de toneladas e produtividade média de 7,7 mil quilos por hectare no Estado. Autoridades e produtores rurais acompanharam, em 18 de fevereiro, o trabalho de quatro colheitadeiras na lavoura preparada especialmente para a 27ª Abertura Oficial da Colheita do grão, na Estação Experimental do Irga, em Cachoeirinha. A solenidade marcou o encerramento do evento técnico que durou três dias e movimentou milhares de pessoas.
A seguir, o público acompanhou os discursos de autoridades e representantes do setor, marcado por fortes críticas à política agrícola e à burocracia que envolve montar a lavoura de arroz no Estado. “Plantar arroz no Rio Grande do Sul é praticamente uma gincana”, afirmou o presidente da Comissão do Arroz da Farsul, Francisco Schardong, na tribuna. O dirigente lembra que as dificuldades começam na tomada de crédito, por conta da seletividade nas agências bancárias, o que fez com apenas 28% dos 1,1 milhão de hectares plantados com a cultura nesta safra tenham sido financiados por agentes financeiros oficiais. Depois disso, mais entraves no “balcão ambiental”, em questões como uso da água, Cadastro Ambiental Rural (CAR) e órgãos como Secretaria do Meio Ambiente (Sema) e Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam). “E temos de ter muito cuidado com o novo gargalo que se apresenta em 2017: o Zoneamento Ecológico-Econômico”, completou Schardong, ressaltando a participação fundamental dos agricultores nas oficinas públicas do ZEE-RS nos próximos dias para manter a viabilidade das atividades produtivas em um futuro próximo.
As dificuldades não param por aí - ainda passam pelo rigor do Ministério do Trabalho na fiscalização, como no caso das Normas Regulamentadoras (NRs) 31 e 33, na exigência do Corpo de Bombeiros de Plano de Prevenção Contra Incêndios (PCCI) para silos e armazéns e nas exigências do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado (Crea-RS), como a presença de um agrônomo responsável em cada engenho gaúcho. “Após cumprir todas as tarefas dessa gincana, os produtores de arroz conseguem, apesar de tudo e fazendo o dever de casa, produzir 7,7 mil quilos por hectare e colher 8,4 milhões de toneladas e merecem o nosso reconhecimento e a nossa homenagem”, disse Schardong.
Por fim, a Farsul aproveitou a presença de autoridades públicas para cobrar que a Conab cumpra efetivamente seu papel de “Companhia de Abastecimento”, usando o mecanismo de Aquisição do Governo Federal (AGF), quando o governo compra o produto e o armazena por tempo indeterminado. A instituição foi duramente criticada pelo setor nos últimos meses por negar a AGF ao trigo, mesmo após comprovar que os leilões de Pepro e PEP não foram capazes de alavancar sozinhos as cotações, defasadas em relação ao mínimo. “Quando faltar arroz (nos estoques federais), que vá às compras”, defendeu Schardong, citando que o governo usou apenas R$ 0,8 bilhões dos R$ 2,5 bilhões destinados à comercialização na rubrica agricultura.
O presidente da Federarroz, Henrique Dornelles, afirmou que os produtores estão recuperando as perdas da safra passada, quando houve quebra de 1 milhão de toneladas devido aos efeitos climáticos. Justamente por isso, há baixos estoques no arroz - 365 mil toneladas no final do mês, menor volume observado desde o início da série histórica da Conab, em 1999, e suficiente apenas para 10 dias de consumo no país -, o que sugere que as cotações dependem da postura do produtor. “O volume é o mesmo que no ano passado (considerando a variação de estoques), e lá tivemos belos preços. O produtor não vai aceitar menos”, argumentou. Atualmente, sem grande pressão de oferta, as cotações estão em cerca de R$ 48, segundo a Emater/RS. Dornelles ainda cobrou atenção dos órgãos fiscalizadores quanto a empresas que estariam embalando produto importado com selo gaúcho, uma ação claramente ilegal que prejudica o setor.
O secretário estadual da Agricultura, Ernani Polo, representando o governador José Ivo Sartori, destacou o trabalho realizado pelos produtores rurais e disse que a colheita é um momento de celebração. Polo afirmou que, para se ter uma qualidade na produção, é cada vez mais necessário um correto processo de gestão na propriedade, citando o convênio firmado entre Juntos para Competir e Irga. O secretário concluiu dizendo que é preciso equacionar o equilíbrio entre o setor e o meio ambiente. Para ele, nem todos sabem o quanto é difícil estar produzindo a céu aberto.
Também foi frequente nos discursos a defesa à continuidade do Irga, em um momento em que o Estado questiona seu tamanho. Dornelles disse que a autarquia é “diferente”, uma vez que é mantida pela cadeia produtiva. “A pesquisa pública oferece garantia ao produtor”, defendeu. Schardong falou da seriedade no trabalho dos técnicos, que resultam em sementes de alto desempenho e preço justo aos arrozeiros. O presidente do Irga, Guinter Frantz, disse que a rentabilidade do produtor aumenta com a pesquisa que se leva para o campo, aliando genética avançada e manejo correto. “O arroz ainda é um dos alimentos mais saudáveis que existem. Nós colhemos e sabemos que estamos consumindo saúde”, completou.
O arroz movimenta cerca de 3% do ICMS gaúcho. São 20 mil lavouras distribuídas em 132 municípios, além de 230 indústrias de recebimento do grão. Calcula-se que 220 mil pessoas estejam envolvidas com a cadeia. A 27ª edição da Abertura Oficial da Colheita do Arroz foi organizada pela Federarroz, com apoio do Sistema Farsul.
Pré-custeio e Cesa
Durante a cerimônia, o superintendente estadual do Banco do Brasil, Edson Bündchen, anunciou recursos para a comercialização e compra antecipada de insumos aos arrozeiros gaúchos. Na linha de Financiamento para Estocagem de Produtos Agropecuários Integrantes do Programa de Garantia de Preços Mínimos (FEPM), que substituiu o EGF, foram disponibilizados R$ 700 milhões, com juros de 9,5% ao ano. Para aquisição antecipada de insumos, a instituição disponibilizou R$ 12 bilhões em recursos controlados para o Custeio Antecipado da safra 2017/2018. As agências da região produtora de arroz já estão realizando as liberações desde janeiro de 2017. No evento, foi assinada uma operação de crédito com um produtor de arroz.
A Secretaria Nacional de Portos também anunciou no evento que a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) autorizou a retirada da grua que impedia a utilização do terminal que recebeu obras da Companhia Estadual de Cilos e Armazéns (Cesa), em Rio Grande, e que servirá para exportações de arroz.
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