Nº 402 - ANO 31 - MARÇO DE 2017
 
Estudo mostra cultivares de trigo mais adaptadas a regiões
 
Em uma safra que excedeu as expectativas, um produtor de trigo de São Gabriel colheu quase 7,7 mil quilos por hectare com uma nova variedade de semente que descobriu no mercado. Empolgado, não demorou para comentar com um amigo, também triticultor em Vacaria, do desempenho excepcional da cultivar na lavoura - e sugeriu a ele que também investisse nela. Aí veio a surpresa: o vacariense também tinha comprado a mesma semente, mas por lá ela só rendeu 6,2 mil quilos, ou 25 sacos a menos, por hectare.
A história não aconteceu de verdade, mas bem que poderia, considerando os resultados do Ensaio de Cultivares em Rede (ECR) para o trigo na safra 2016, apresentado pela Fundação Pró-Sementes na sede da Farsul, no final de fevereiro. O produtor de São Gabriel não estava mentindo, nem o de Vacaria - o problema é que as cultivares não se comportam da mesma forma em todas as regiões do Estado, tampouco quando plantadas em épocas diferentes num mesmo local. O objetivo da pesquisa foi justamente analisar o desempenho 34 cultivares de trigo em sete regiões diferentes do Estado e em duas épocas de plantio, trazendo informações técnicas e isentas ao produtor rural que se prepara para mais uma safra de trigo no Estado. “A escolha correta da semente significa mais dinheiro no bolso”, afirma o diretor técnico e administrativo da Pró-Sementes, José Hennigen. O resultado está disponível no site www.cultivares.com.br e em versão impressa nos sindicatos rurais.
Para se ter ideia do impacto que a escolha da cultivar pode ter na renda do produtor, uma variedade de ciclo médio/tardio atingiu 9.137 quilos por hectare no experimento em Cachoeira do Sul (1ª época de plantio), enquanto outra produziu apenas 6.196 quilos por hectare sob as mesmas condições - uma diferença de 49 sacos por hectare. “O produtor tiraria o custo de uma lavoura apenas na tomada de decisão da semente”, avalia o presidente da Comissão do Trigo da Farsul, Hamilton Jardim. Considerando venda do saco a R$ 28 no Estado, o faturamento do primeiro seria R$ 1.372 maior que a do segundo em cada hectare semeado.
Resultados como esse - produtividade de 152 sacos de trigo por hectare - são impensáveis hoje em lavouras comerciais no Estado, mas Hennigen esclarece que o estudo mostra o potencial das sementes, e a diferença proporcional de rendimento entre as variedades se mantém na produção em larga escala. Clima, manejo, nível de tecnologia e mão de obra, entre outros fatores, influenciam para que as lavouras “reais” atinjam cerca de 70% dos resultados obtidos no ECR, de acordo com ele.
O estudo considera diferenças nos ciclos e nas épocas de plantio: foram analisados cultivos de ciclo precoce e médio/tardio, e o plantio em dois momentos diferentes com intervalo de 15 dias. As 34 cultivares de trigo foram escolhidas entre as mais de 200 inscritas no Ministério da Agricultura pela expressividade comercial entre os produtores gaúchos, quando indicadas pelo Zoneamento Agroclimático. As regiões escolhidas foram São Luiz Gonzaga, Santo Augusto, Cachoeira do Sul (moderadamente quentes, úmidas e baixas), São Gabriel, Cruz Alta, Passo Fundo e Vacaria (frias, úmidas e altas). Em cada local, cada variedade ocupou três parcelas - terrenos de 5 metros quadrados, onde é plantada apenas uma cultivar. Além do rendimento médio das cultivares em diferentes regiões, são avaliados data de espigamento e de maturação do trigo, altura da planta, reação ao acamamento e pH, único parâmetro de qualidade observado. A classe do trigo (básico, pão ou melhorador) também é indicada.
A gerente de pesquisa e desenvolvimento da Pró-Sementes, Kassiana Kehl, que apresentou a pesquisa, afirma ser interessante para o produtor observar o desempenho das sementes em pelo menos três safras - há série histórica desde 2008 no site da Fundação.
Por fim, os dirigentes também discutiram o quanto a genética avançou nos últimos anos, cuja maior expressão é o crescimento constante das médias do estudo, além da variação das cultivares analisadas, incluindo lançamentos. Jardim afirma que a quantidade atual de boas opções de sementes traz conforto e tranquilidade ao produtor. “Ele tem alternativas se ocorre alguma quebra de resistência, ao contrário de 30 anos atrás”, diz.
O estudo “Desempenho de cultivares de trigo indicadas para o Rio Grande do Sul - 2016” é uma realização de Farsul, Casa Rural e Fundação Pró-Sementes, com patrocínio do Senar-RS. O chefe da Divisão Técnica do Senar-RS, João Augusto Telles, e o coordenador das comissões de grãos da Farsul, Jorge Rodrigues, também participaram do lançamento dos resultados.
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