Nº 402 - ANO 31 - MARÇO DE 2017
 
Produtores gaúchos de olho no mercado de soja
 
Enquanto as primeiras lavouras de soja são colhidas no Estado, os produtores gaúchos acompanham com apreensão uma série de números indispensáveis a quem destina dois terços da produção (65%) ao mercado internacional. Um deles é a taxa de câmbio – e para essa eles reservam emoções distintas. Certamente quem está no mercado há mais tempo e exportava soja com o dólar a R$ 2,35, média em 2014, comemora. No entanto, comparado ao ano passado, o dólar (R$ 3,09 em 1º de março) está R$ 0,85 mais barato no mesmo período, o que significa valorização da moeda brasileira em 21,5% e menos dinheiro, em reais, entrando no bolso do produtor.
O impacto entre um ano e outro na rentabilidade seria enorme, mas apenas se os preços internacionais estivessem no mesmo patamar do ano passado. Não estão, e eis o segundo valor que merece atenção do produtor de soja gaúcho: a cotação do grão na bolsa de Chicago. O bushel, unidade de medida que equivale a 27,2 quilos para soja, esteve cotado, em média, a US$ 10,40 em fevereiro no principal termômetro do mercado mundial de commodities agrícolas. Se os preços não são historicamente os melhores, ao menos estão 27% maiores que em fevereiro de 2016, quando o valor era de US$ 8,21. “Por causa disso, a renda em reais do produtor deve ficar estável neste ano”, aposta o economista-chefe do Sistema Farsul, Antônio da Luz, que considera o ano passado positivo para quem apostou na cultura com tecnologia.
O motivo principal para a aparente reação dos preços da soja seriam as perdas na Argentina nas duas últimas safras (7% e 2%, respectivamente), e o fato de que produção (314 milhões de toneladas) e consumo (315 milhões de toneladas) mundiais de soja estiveram ajustados em 2016, após três anos consecutivos gerando excedentes - ainda que a oferta de 2016, considerando 77 milhões de toneladas em estoques mundiais, fosse bem maior que a demanda.
A China, principal mercado do grão (63% de participação mundial), teve crescimento de 71% nas importações de soja desde 2010, passando de 50,3 milhões de toneladas para 86 milhões de toneladas em 2017, conforme estimativa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). O consumo mundial também cresce: 37,6% nos últimos 8 anos. “Muito se fala em desaquecimento chinês, mas no agronegócio isso não existe. O que acontece é um crescimento menor em relação aos últimos anos (3% em 2017, enquanto a média dos últimos 5 anos foi de 9%), mas ainda assim é um crescimento, eles estão buscando mais soja no mercado”, afirma da Luz.
O problema é que a produção também aumenta em ritmo acelerado, o que acaba por inundar o mercado de soja e pressionar as cotações para baixo. Desde 2010, ela passou de 260,6 milhões de toneladas para as atuais 336,6 milhões de toneladas projetadas para este ano - alta de 21%. Os estoques devem subir de 61 milhões de toneladas em 2010 para 80 milhões de toneladas ao final deste ano. O Brasil é o maior exportador mundial do grão, com 54,4 milhões de toneladas em 2016, seguido pelos Estados Unidos, com 52,7 milhões de toneladas.
No fim das contas, da Luz acredita que é um bom momento de mercado para quem colhe soja no Estado. “Estamos perdendo essa blindagem do câmbio (às baixas cotações internacionais). Provavelmente, a cotação do dólar irá cair de novo no ano que vem, se não houver nenhuma bomba no cenário político nacional. Então, acho que o produtor deveria aproveitar”, diz o economista.
Para ele, não faz sentido discutir todos os anos “uma coisa abstrata como a taxa de câmbio”, mas sim trabalhar para ter competitividade seja qual for o seu valor. “O Brasil é hoje um gigante desengonçado, enquanto os Estados Unidos são um gigante esportista, um jogador de basquete nas Olimpíadas”, compara. Os produtores brasileiros enfrentam custos de produção maiores, destaca da Luz, impactados pelos preços dos agroquímicos que não caem mesmo com a valorização do real, como seria a tendência natural. Além disso, os problemas de logística e altos custos com o frete tornam o produto brasileiro ainda mais defasado em relação ao maior concorrente internacional. “Fizemos um estudo, há alguns meses, comparando os dois países, e a situação só piorou de lá para cá”. Na ocasião, a assessoria econômica do Sistema Farsul calculou gasto de R$ 0,31 por tonelada a cada quilômetro percorrido para o produtor levar sua mercadoria do noroeste do Estado para Xangai, na China - quase o triplo do que gasta o produtor de Minneapolis (R$ 0,11), cidade ao norte dos Estados Unidos localizada às margens do Rio Mississipi.
Atualmente, a Farsul trabalha em duas frentes para contornar a deficiência logística do país. A primeira é o grupo de trabalho que discute investimentos nas hidrovias gaúchas, formado por entidades e empresas que respondem por mais de 80% do volume atual de cargas pelo modal no Estado. A segunda cobrança é em relação à malha ferroviária, sucateada pela concessionária Rumo Logística, que diminuiu em 28% o volume de cargas transportadas nos últimos dez anos, enquanto a produção aumentou quase 60%. A mesma empresa ampliou em 202% a quantidade transportada na malha Norte, 36% na Oeste e 12% na Paulista. A Federação prepara novo documento ao governo federal alertando sobre a situação.
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