Nº 402 - ANO 31 - MARÇO DE 2017
 
Logística: o Rio Grande na UTI - Fábio Avancini Rodrigues*
 
Quando se fala em logística, devemos levar em conta um conjunto de operações, sejam elas ligadas ao transporte de coisas ou pessoas, à comunicação de voz e/ou dados, à energia... Em outras palavras, são os recursos necessários para desenvolver uma atividade.
Partindo desse pressuposto, na atividade agrícola, necessitamos que esses recursos sejam satisfatórios para atender o bom resultado de uma safra: seja na chegada de insumos, na sua utilização ou no posterior escoamento da produção. Podemos fazer uma comparação com o sistema circulatório de nosso corpo: quando nossos vasos sanguíneos, por alguma razão, não conseguem atender a demanda necessária de nossas células, ficamos doentes. Infelizmente, é o que está acontecendo em nossa realidade. Estradas saturadas e mal conservadas devido a um volume excessivo de tráfego, malha ferroviária praticamente abandonada pela atual concessionária e ainda nosso sistema hidroviário relegado a um plano de coadjuvância.
Gostaria de me ater à questão hidroviária - não que os modais ferroviário e rodoviário sejam menos importantes, mas devemos levar em conta que o Estado possui a segunda maior hidrovia do país já implementada, que por diversos motivos foi depreciada. Não são realizadas as intervenções necessárias para manter sua capacidade plena de transporte de carga. Do contrário, teríamos um modal de transportes tremendamente competitivo, que levaria a ganhos em toda a cadeia produtiva, tanto no transporte de insumos quanto no escoamento da produção. Lembremo-nos que nossa porta para o mundo é o porto marítimo de Rio Grande, onde se situam os terminais exportadores dos produtos oriundos do agronegócio, bem como os terminais das empresas de fertilizantes usados em nossa atividade. Só isso já ressalta a importância do sistema hidroviário de nosso Estado.
Dentro desse quadro, a Farsul, desde o ano de 2014, vem desenvolvendo uma série de ações no intuito de agilizar as intervenções necessárias, tanto no Superporto de Rio Grande, quanto no sistema hidroviário gaúcho.
Temos que ter em mente que o valor que recebemos pelo nosso produto, como por exemplo a soja, é o preço pago no porto menos o custo para levarmos o mesmo até o porto. Nossos concorrentes internacionais levam vantagem nesse quesito, pois, como no caso dos Estados Unidos, o uso das hidrovias, junto com a eficiência logística que possuem, é determinante para que a soja das regiões produtoras chegue ao porto com um custo logístico mais competitivo ao comprador. Para se ter uma ideia, o custo para levar uma tonelada de soja da região noroeste do RS ao Porto de Rio Grande é similar ao deslocamento do mesmo produto nos Estados Unidos numa distância cinco vezes maior.
Para que possamos chegar a um patamar de competitividade com nossos concorrentes mundiais, será necessário uma série de intervenções tanto no Porto de Rio Grande, como no nosso sistema hidroviário. Em Rio Grande, devemos manter o calado necessário para a operação de navios com grande capacidade de carga (acima de 60 mil toneladas), bem como a eficiência de carregá-los e/ou descarregá-los com o melhor rendimento possível dessas operações; um sistema inteligente de monitoramento para a chegada e partida dos navios, minimizando a intervenção humana com a devida segurança; maior agilidade no trâmite documental das operações de importação/exportação, entre outros tantos aspectos.
Quanto às nossas hidrovias, para que o frete morto (capacidade de carga não usada pelas embarcações) seja reduzido e, consequentemente, se aumente o fluxo dos produtos transportados e se diminua seu custo, é necessário que se mantenham condições adequadas de calado e sinalização das mesmas, possibilitando seu uso pleno 24 horas por dia. Temos convicção que, se essas medidas forem tomadas, estaremos contribuindo ainda mais para o desenvolvimento do Estado, também atraindo investimentos ao longo do curso hidroviário.
Mas, como dito antes, não podemos esquecer dos outros modais que formam este “sistema circulatório” do nosso Estado, sob pena que este corpo venha a ficar ainda mais doente. A Farsul tem sido protagonista na questão, visando evitar a insuficiência circulatória do nosso Estado.

*Diretor vice-presidente da Farsul
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