Nº 415 - ANO 32 - ABRIL DE 2018
 
Paulo “Goela” - Blau Souza*
 
As nossas estâncias de cercas de carafá e gado de osso eram enriquecidas quando aparecia o Paulo da Joana com mala de garupa cheia de ossos recolhidos lá pela invernada grande, bem além do paradouro, para os lados da Nazária. Sílvio, o pai de Paulo era agregado de meu pai e morava com a mulher Joana e quatro filhos, num rancho de torrão e santa-fé, próximo a cercado e grande mangueirão de pedras. Tinham vizinhos, que aos poucos iam migrando para a cidade em função da educação dos filhos. Paulo representava, para mim e meus irmãos, o mesmo que os cabanheiros castelhanos para as exposições-feiras da época. Ossos esbranquiçados e livres de partes moles dependiam da passagem do tempo e das intempéries. Mas ossos pelo campo não faltavam em tempos de secas fortes, surtos de febre aftosa e poucos recursos veterinários. Paulo também era companheiro para melar lechiguana, usar bodoque e participar de pequenas caçadas com seu cãozinho Guaraná. Certa vez, sua leve gagueira agravou-se quando atiçou o cãozinho contra lagarto de papo amarelo, que resolveu enfrentar a briga e levava vantagem ao morder o cachorrinho pelo pescoço e tentar imobilizá-lo. Com o cusquinho em má situação, Paulo virou tatibitati e os gritos passaram de “qui te pega, qui te pega” para “qui te larga, qui te larga, qui tassoro.”
À medida que crescia, ia aprendendo de tudo. Tropeava, esquilava, campereava, fazia lenha, cuidava do cercado... Quando a lavoura de trigo mecanizada chegou a campos vizinhos, tornou-se tratorista, sem jamais perder o contato com a estância e com seu time de futebol. Paulo era bom de bola. Veloz e bom chutador, tinha grande resistência física e passou a substituir meus irmãos Hélio ou Nemo no decorrer das partidas. Ao sentar praça no regimento de cavalaria mecanizada em Bagé, aprimorou os conhecimentos de mecânica e passou a atuar como tratorista na estância, sobretudo para roçar campo. Cuidadoso com a maquinaria, ganhou a confiança do Jacques, meu irmão, que assumira a Estância do Sobrado. Diminuíram as estripulias de fim de semana e o trago mau conselheiro. Passou a economizar e logo teve algum patrimônio e uma casa na cidade. Mas atos de despautério, como o de pedir a bolada e montar um aporreado de má índole em dia de festa no Sobrado, tornaram-se inesquecíveis. O cavalo, após alguns pulos, enganou os amadrinhadores e enveredou em alta velocidade pelos fundos do casario da estância. Cruzou chiqueiro, monturo, pés de abóbora e se atirou contra cerca nova de sete fios de arame bem esticado. O cavalo bateu de cabeça contra moirão e virou cambalhota por cima da cerca. Só então, Paulo soltou-se dele. Felizmente, apenas o cavalo teve a testa costurada.
Por que esta crônica? Para festejar a chegada aos oitenta anos e, em boa forma, de um amigo que tem algo muito valorizado em minhas escritas: a capacidade de adaptação do gaúcho e seu bom senso. Querem uma prova? Em recente roda de chimarrão, na madrugada, Paulo apontou os três produtos que mais tinham alterado sua existência: bota de borracha, veneno granulado contra formigas e motosserra. Sintam a sabedoria franca de quem enfrentara geadas, pedregulhos, espinhos, atoladouros. E como soube valorizar o combate efetivo aos formigueiros, sem ter de seguir carreiros. E nem se fale do tempo e do esforço gastos na dura tarefa de fazer lenha a golpes de machado. Paulo Narciso Ribeiro da Silva em tudo melhorou com o passar do tempo, mas jamais alterou sua gritaria ao levantar pontas de gado nas costas de arroio ou de banhado em dia de parar rodeio. Pelos gritos, aos oitenta anos, continua a merecer o apelido de “Goela” que carrega desde a infância. Paulo jamais faltou aos amigos. Nem na luta, nem no luto. Pleno de sabedoria no viver, ele continua gritando. Que o mundo não o cale, é o que esperam seus muitos amigos.

*Médico e escritor
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