Nº 267 - ANO 19 - DEZEMBRO DE 2005
 
Tropeando - Fernando Adauto
 
Gostava de pealar, de a pé em uma marcação era imbatível. De todo o laço, doze braças, ficava segurando na presilha. Para ele a maior festa. A cavalo era pachola, bem pilchado, lenço branco folgado no pescoço, chapéu requintado mostrando um vê que tinha na testa, simbolizava o vencedor que sempre foi. Comia com grande prazer; o churrasco do granito do peito de uma vaquilhona gorda era o prato preferido. Não tinha curso superior; fez contabilidade no segundo grau e com dezoito anos veio administrar a Estância do Sobrado. Com amor ao trabalho, uma aptidão atávica e muita determinação, inovou desde o primeiro momento. Buscou sempre informação junto aos técnicos, irmãos e parentes veterinários e agrônomos. Criou metodologia para todas as ações de trabalho na estância. Tinha qualidade total na cabeça: galpão sempre varrido; material organizado; bretes e mangueiras limpos; grama aparada; pátio caprichado; tudo anotado e planejado. Participou de todos os movimentos classistas da região, diretorias de cooperativas, sindicato, nunca se omitiu e em várias oportunidades assinou na esquerda para viabilizar entidades importantes para o desenvolvimento regional. Foi o grande incentivador da Feira de Terneiros de Lavras do Sul e, embora tenha tido o apoio de muitos, se manteve na liderança, sempre presidindo o Núcleo de Produtores de Terneiros. Sabia como poucos valorizar sua produção. Produzia com qualidade e sempre alcançou preços muito acima da média. Pioneiro, sempre se antecipou às tendências de mercado. De tocaia esperava a rastreabilidade e desde quando instituíram o Sisbov adotou para toda a produção.
Muitas são as recordações. Lembro de uma tropeada em que ele levou uma redomona, a Tobiana Bandeira, presente do padrinho Hélio. Laçada do pescoço na troca de cavalos em um café da manhã no Camaquã Pelado, tomou o laço do velho Sílvio e disparou com toda a cavalhada. A zoada do laço nas macegas assombrava até os cavalos velhos e mansos. Montei em um pulo no meu cavalo, o único que estava encilhado e, após uma grande corrida, trouxe a tropilha de volta, a gauchada rendeu comentários ao redor do fogo por muitos dias. Foi na mesma tropeada em que o Didi engasgou. Levou um soco nas costas que fez saltar o naco de carne que rolando, levantou poeira no chão batido. Lacrimejando e tossindo o guri se virou e seguiu cortando no espeto outro pedaço de carne, o que causou espanto e muitas gargalhadas. Muito churrasqueamos juntos, com certeza uma ponta de gado e ovelhas consumidos. Companheiro de bailes, carreiras, futebol e muitos negócios de campo e gado. Embora os apertos não tenham sido poucos, foi um amigo que nunca faltou. Sempre me prestigiou; de uns tempos para cá me chamava de “meu guru”.
Se foi o compadre Jacques Souza. Como ele gostava de dizer, desocupou o município. Aos 63 anos, foi sepultado no jazigo da família, no mesmo sepulcro do avo Zeca Souza, outro administrador do Sobrado e responsável pelos dois pisos. O Jacques deixa a esposa, duas filhas, um filho meu afilhado e um neto, todos encaminhados e com um exemplo de vida a seguir. Não sei se vou encontrar o compadre em outra vida. Seria muito bom comentarmos o que passamos nesta. Se não nos encontrarmos, não tem importância, esta vida valeu a pena. O Jacques deixou história que aos poucos, com muita saudade, vamos contando.
voltar