Nº 271 - ANO 20 - ABRIL DE 2006
 
Vinhos e pioneirismo nos pagos - Blau Souza*
 
O Rio Grande do Sul firmou-se como produtor de vinhos pela ação dos imigrantes italianos no cuidado das parreiras e na crescente industrialização de castas viníferas cada vez melhores. Mas as uvas e o vinho chegaram ao Rio Grande muitos anos antes. Comer uvas cultivadas nos pátios internos das estâncias ou em seus pequenos pomares fazia parte do Continente de São Pedro no século XVIII. A produção artesanal, familiar, da bebida também ocupou portugueses e açorianos, com seus escravos e descendentes, junto das povoações e dos fortes que se instalaram no Rio Grande português. Mas houve produção em escala maior em alguns pontos do Rio Grande. Paulo Xavier e Carlos Reverbel assinalaram o pioneirismo do açoriano nascido na Ilha do Pico, Manoel de Macedo Brum da Silveira, junto da Vila de Rio Pardo e que teria fabricado vinho antes da chegada do príncipe regente em 1808, quando ainda eram proibidas as indústrias no Brasil. Gonçalves Chaves refere que Manoel de Macedo chegou a produzir 45 pipas de vinho. Também são reconhecidos como pioneiros Manuel Bento da Rocha em Pelotas e Tomaz Máster na Ilha dos Marinheiros em Rio Grande por volta de 1840. Claro que o apelo às armas e a tentação das sesmarias falavam mais alto e, ao montar a cavalo e rumar para fronteiras imprecisas, os continentinos tornavam secundária a produção de vinhos. O trabalho das mulheres e do pessoal das casas nas estâncias em tempos de guerra mantinha videiras para a produção de uvas, mas não para fabricar vinho em quantidade e qualidade apreciáveis.
Há histórias interessantes e pouco conhecidas sobre a produção de vinho em cada município. A posição geográfica de isolamento e a natural tendência, até bíblica, de fabricar a bebida estimulam conhecê-las. Para cumprir o dever de casa, examino o que ocorreu na minha terra, nas Lavras, antes da chegada da família Poglia, que se instalou lá e na vizinha Caçapava. Os Poglia sempre produziram bom vinho, mas em pequena quantidade satisfazendo o padre e os muitos amigos. Menos conhecida é a produção anterior à dessa família de origem italiana e que foi examinada por Edilberto Teixeira na sua obra Lavras do Sul na bateia do tempo. Beto Teixeira transcreveu o registro de Alfredo R. Costa, que em 1917 fotografou e se entusiasmou com o que viu na então popular Granja dos Cachapuz. Escreveu: “A granja está situada nas proximidades da vila, consta de 250 hectares de campo e ótimas terras de cultura. Tem 10.000 pés de parreira produzindo, anualmente, 20.000 litros de superior vinho, grande pomar e vastas plantações. Exporta (para municípios vizinhos) várias classes de frutas, especialmente, maçãs, pêras e pêssegos. É o único grande vinhedo do município”.
Mais de perto, nas pequenas comunidades, é possível examinar com detalhes os pioneiros, sua origem, traços culturais e tantas outras coisas. Os Cachapuz estavam mostrando que em pequena área era possível produzir uma diversidade de produtos e obtendo bons lucros. De certa forma, desafiavam conceitos de uma forma comparável a Assis Brasil. Quem eram eles? Portugueses de origem nobre, com recursos, e bastante influentes na política de Portugal. Vieram para o Brasil e deram com os costados em Lavras por causa da derrota dos miguelistas em Portugal na revolução vencida pelo nosso D. Pedro I, que lá foi D. Pedro IV, e que assegurou a coroa para a filha num regime constitucional. O grande derrotado foi o absolutista D.Miguel, irmão de D. Pedro. O envolvimento na revolução fora muito grande e os Cachapuz preferiram deixar Portugal a ter de conviver com os adversários vencedores. Cachapuz era um nome assumido para guerrear e que passou a designar a família ao migrar para o Brasil. Com o casamento do juiz José Bernardo com Dona Coló, Lavras ajudou no surgimento dos Cachapuz de Medeiros, mas há muitos outros descendentes ilustres da família distribuídos pelo Brasil e em Portugal.

* Médico e escritor
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