Nº 271 - ANO 20 - ABRIL DE 2006
 
Tropeando - Fernando Adauto
 
Tanto portugueses quanto espanhóis usaram o catolicismo como meio de dominação e de implantação de sua cultura, respeito e obediência às respectivas coroas. Não fugi desta influência, sendo criado em uma família católica. Minha mãe, sobretudo, era muito religiosa. Fui um católico militante em vários movimentos da Igreja, leitor da Bíblia, Antigo e Novo Testamento, encíclicas e outros documentos de orientação católica. Ao mesmo tempo, sofri influência de meu pai, tios e parentes, filhos de militantes do Partido Republicano Rio-grandense, inspirado no positivismo, doutrina de Augusto Comte, onde a austeridade, a firmeza de atitudes, a autoridade, disciplina e lealdade eram preconizadas e estimuladas. Nunca aceitei a pregação marxista da Igreja; a invenção do MST e outras atitudes lideradas por bispos e padres. Não aceito também o culto à pobreza e programas assistencialistas que têm o objetivo de manter submissos pobres e ignorantes. Sempre fui a favor de uma caridade que desenvolva o homem em todos os sentidos – social, político e econômico. Por não concordar com os rumos adotados, terminei me afastando dos padres e da Igreja, embora continue cristão e procure praticar a caridade impregnada em minha formação.

Num domingo ensolarado, com minha mulher e muitos familiares, aguardávamos na igreja, em Júlio de Castilhos, terra de minha cunhada, para batizar meus sobrinhos gêmeos. Lembro que estava muito descontraído e contente em ser padrinho de um dos guris. O padre carrancudo, com uma postura raivosa, iniciou a cerimônia. Mais de vinte crianças aguardavam o batizado. O sermão, baseado no Antigo Testamento, incentivava o olho-por-olho. Logo em seguida começou a desaforar os pecuaristas, latifundiários, criminosos e outros adjetivos, de forma odiosa, provocativa e absurda. Terminou com meu bem-estar, me indignei, levantei, interrompi o padre e comecei meu sermão:

– Por causa disso que o padre falou foi que Jesus Cristo veio ao mundo... – e por aí fui. O padre, aos gritos, pedia que eu parasse. Eu falava mais alto e continuava. As crianças começaram a chorar, algumas mulheres também, dos homens vinham palavras de ordem. O padre, com algumas famílias de acampamento sem-terra, retirou-se para a sacristia e nós fomos para a praça. Depois de mais de uma hora, graças à intervenção de uma advogada, tia de minha cunhada, reiniciamos a cerimônia. Acordados, sem discurso, o padre rosnando para nós e eu para ele.

O fundamentalismo, em todas as religiões, é condenável, anda junto ao atraso, prega o ódio e a luta armada. Usa Deus para as maiores atrocidades e estimula movimentos antagônicos de igual intensidade, violentos e também condenáveis.
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