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Nº 409 - ANO 31 - OUTUBRO DE 2017
 
Entidades buscam soluções para o leite em Brasília
 
Representantes da produção e da indústria leiteira gaúcha levaram até Brasília os pleitos para amenizar a crise no setor. Eles entregaram documento, elaborado e assinado pela Farsul e por outras entidades de cinco estados brasileiros de larga produção, ao ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, solicitando a compra governamental de 50 mil toneladas de leite em pó e 400 milhões de litros de leite UHT, a fim de equilibrar a oferta em um momento de baixa no consumo do produto pela população. O posicionamento havia sido adiantado em reunião da Aliança Láctea Sul-Brasileira durante a 40ª Expointer, em Esteio.
O texto afirma que produtores e indústrias passam por uma “situação crítica”, que compromete uma cadeia produtiva que tem mais de 4,2 milhões de pessoas envolvidas direta e indiretamente. “Considerando o Brasil, com seus limites geográficos, porta de entrada e corredor dos produtos oriundos do Mercosul, especialmente produtos agrícolas, com ênfase nos lácteos, necessitamos de medidas protetivas, na relação comercial entre os países, criando cotas de importação de lácteos do Uruguai, e o fim da liberação automática das licenças de importação”, defendem as entidades.
O pedido de maior urgência, no entanto, é relativo à política de controle de estoque e abastecimento interno do governo federal, que surtiria efeito mais rápido nos preços pagos aos produtores e indústrias. “É necessária e urgente a intervenção do governo federal, com a aquisição de leite em pó e leite UHT, para enxugar o excedente (4,5% de redução de consumo e 4% de aumento da produção), bem como elevar os valores de enquadramento por produtor na política de aquisição”.
As entidades também pedem a revisão dos preços mínimos do leite e o fortalecimento da produção brasileira de lácteos, por meio da busca de novos mercados, fomento e assistência técnica, ampliando a sanidade dos rebanhos e a competitividade do leite produzido.
Sem resposta imediata das autoridades, no entanto, o leite manteve a tendência de queda que se observa há cinco meses no Rio Grande do Sul e por igualmente longos períodos em outras praças brasileiras. O Conseleite/RS projeta nova retração no valor de referência pago pelo litro do produto em setembro (R$ 0,8519), 4,4% menor que o consolidado de agosto (R$ 0,8914) - que já foi cerca de um centavo mais baixo que o previsto. O grupo destaca que o preço de referência está nos patamares de janeiro do ano passado, período em que há queda sazonal na cotação.
O presidente da Comissão do Leite da Farsul, Jorge Rodrigues, reitera que a principal medida para conter a queda seria justamente o controle de estoques por meio das compras governamentais e que os números também guardam relação com a ausência de resposta ao pleito durante todo o mês de setembro, desde que este foi encaminhado, no dia 12. “A produção está em volume de normalidade, mas houve queda no consumo, o que afeta os preços. A principal saída, agora, é a compra governamental”, defende ele. A manutenção da suspensão de incentivos de importação também é vista pelo dirigente como fundamental. O grupo de entidades também anunciou que voltará a Brasília, ainda nos primeiros dias de outubro, para cobrar uma resposta do governo federal à questão, que não avançou ao longo das últimas semanas.
A situação de baixa remuneração não é diferente nos demais estados brasileiros. Boletim informativo do leite, referente a setembro, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), aponta redução de 23,34%, em termos reais, de agosto a setembro, na “média Brasil” - índice que considera os principais estados produtores (BA, GO, MG, SP, SC e RS). “O recuo na cotação do leite no campo continua ocorrendo em razão da demanda enfraquecida por lácteos na ponta final da cadeia. Uma vez que o consumo de lácteos está diretamente relacionado ao aumento de renda, o menor poder de compra segue desaquecendo o mercado”, mostra a publicação. A indústria estaria também apresentando redução de margens na venda ao atacado, com frequentes promoções para manter o fluxo de vendas e evitar a formação de estoques.
O Cepea afirma que os preços, nos próximos meses, vão depender principalmente da demanda e das condições climáticas encontradas pelo produtor rural. “O recuo da taxa de desemprego no trimestre terminado em junho, ainda que de apenas 0,2%, dá sinais de uma possível reação do consumo”.
O documento ainda cita previsões do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) de possível ocorrência do fenômeno La Niña nos meses próximos, por conta de águas mais frias no Oceano Pacífico. Ela dependeria das correntes de vento daqui para frente. De acordo com o Inmet, se houver La Niña, as chuvas devem retornar mais tarde neste ano, apenas no final de outubro, e com mais irregularidade. “Para o pecuarista, a estiagem diminuiria a qualidade das pastagens e afetaria a produção. Ao mesmo tempo, para o agricultor, o plantio do milho é prejudicado, o que pode, consequentemente, influenciar na precificação da ração do gado, resultando em menor produção leiteira.”
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