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Nº 411 - ANO 31 - DEZEMBRO DE 2017
 
Editorial
 
Parece até covardia observar o que é exigido de um produtor rural europeu para importar insumos e maquinário de outras nações da União Europeia e comparar esse fato com a gincana da qual participa o agricultor brasileiro, quando este deseja comprar os mesmos produtos onde for mais barato no Mercosul. Isso porque a confrontação de realidade soa absurda, tamanha a diferença de tratamento. Trâmites burocráticos e impostos dos mais variados tipos simplesmente inviabilizam essa ação no Brasil, na quase totalidade dos casos.
Diante disso, a indignação se volta, imediatamente, ao bloco econômico sulamericano - que de “bloco econômico” tem muito pouco. O Mercosul completará 27 anos em março próximo, mas não avançou quase nada na construção de um efetivo livre comércio entre as nações signatárias. Enquanto a União Europeia rechaça quaisquer licenças, anuências, inspeções, controles sanitários ou outros aduaneiros intrabloco, por constituírem claro descumprimento das regras gerais do grupo, as nações da América do Sul fazem desses mecanismos rotina, como forma de proteger as próprias economias, acobertando-as da concorrência internacional.
Só que a legislação brasileira está entre as que, cega e controversamente, mais acreditam nesse modelo falido de desenvolvimento. O Brasil ocupa a 140ª posição, entre 183 países, no ranking de economias mais abertas do mundo, pela norte-americana The Heritage Foundation.
O produtor sabe bem disso, quando enxerga, na prática, herbicidas como glifosato e 2,4D custarem menos da metade no Uruguai e mesmo assim não ter qualquer possibilidade de cortar custos acessando essas mercadorias além das fronteiras. Tudo em nome do protecionismo à indústria nacional, incluindo aquela voltada ao agronegócio, cujos atores em grande parte falam outras línguas (são multinacionais), e há muito estão instaladas no território recebendo as mesmas benesses de sempre.
Chega a ser cômico ainda notar, como bem apontou a reunião mais recente da Federação das Associações Rurais do Mercosul (Farm), que o Brasil impõe uma série de restrições para compra de agroquímicos, fertilizantes e maquinários, mas parece não se importar em liberar a aquisição de produtos finais de outras nações sulamericanas, produzidos com esses mesmos materiais que por aqui são proibidos ou, burocraticamente, vetados ao agricultor brasileiro. Não faz o menor sentido.
A Farsul seguirá cobrando a evolução nas regras do Mercosul, mas também deixa claro que de nada adianta criar uma agenda progressista com os países vizinhos e buscar acordos de livre comércio com a União Europeia se o Brasil continuar com a mesma mentalidade de fechamento econômico que mantém desde os primórdios do desenvolvimento. É para dentro que precisamos olhar primeiro, sob pena de minar a competitividade do agronegócio brasileiro.
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