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Nº 411 - ANO 31 - DEZEMBRO DE 2017
 
Cenário do arroz é agravado por atraso no plantio
 
O maior atraso no plantio do arroz no Estado em, pelo menos, oito safras é apenas mais uma preocupação ao produtor gaúcho - que já se mostrava apreensivo com dívidas, estoques elevados, dificuldades na tomada de crédito, aumento nas importações e estremecida relação com a indústria. As chuvas que não deram trégua no mês de outubro comprometeram a semeadura, que necessita de tempo seco, e muitas áreas tiveram de ser preparadas novamente em função das enxurradas. “A lavoura já estava apertada em termos de custo de produção. Com a repetição dos tratos culturais, fica cada vez mais inviável o produtor, ao menos, igualar o que gastou”, afirma o presidente da Comissão do Arroz da Farsul, Francisco Schardong.
Segundo levantamento do Irga, apenas 30,4% das áreas destinadas à cultura neste ciclo haviam concluído a etapa no final do mês. No mesmo período do ano passado, o índice era quase o dobro: 60,2%. Da mesma forma, analisando as sete safras mais recentes, o plantio já havia ultrapassado os 50% em seis delas, com exceção de 2015/2016 (38,2%). O impacto de tudo isso deve ser a queda na produtividade final, por conta da perda da janela ideal em diversas regiões. Schardong ainda relata desistência de plantio em áreas com menor potencial produtivo em todo o Estado, além da constatação de menor uso de tecnologia na lavoura, também em decorrência da complicada realidade econômica de grande parte dos arrozeiros e do significativo número de arrendatários envolvidos com a cultura (precisam buscar o menor custo possível). A previsão hoje do Irga é de que a colheita do grão encolha em torno de 1,3 milhão de toneladas.
Os locais que concluíram a etapa também permitem notar que continua a preferência pela variedade Irga 424 (cerca de 60% das áreas), o que também traz preocupação ao setor - na safra passada, houve descontos por parte da indústria na hora da comercialização. “A escolha é compreensível, porque representa menor custo de produção por hectare. Só que novamente a safra se desenha para ter a maior área com o menor preço”, diz Schardong. O dirigente ainda lembra que, conforme estudos econômicos do Sistema Farsul, a remuneração ficou, em média, R$ 3,50 abaixo do custo por saco em 2016/2017, quando o Estado colheu 8,74 milhões de toneladas, alcançando produtividade de 7.908 quilos por hectare.
Por conta da realidade no campo, Schardong, como representante da CNA na Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Arroz do Mapa, encaminhou carta ao ministro da Agricultura, Blairo Maggi, em nome do grupo, que pede medidas de apoio para manter a viabilidade da cultura. O primeiro alerta é quanto ao acesso ao crédito oficial, cuja seletividade faz com que o produtor financie a safra por meio da indústria. Esta, por sua vez, cobra juros “entre 1,8% e 2,8% ao mês, com entrega programada para os meses de março e abril, justamente de preços sazonalmente mais baratos”, segundo o texto. “Devemos buscar alternativas para esse grande número de produtores que estão pagando juros incompatíveis com as margens da atividade”, conclui.
Além disso, a entidade cobra que a possibilidade de recuperação judicial seja estendida a produtores rurais, “único empresário alijado desse moderno mecanismo de recuperação”, por esta ser “a melhor e mais madura” saída para o entendimento de devedores e credores. E o documento cita a seguir o custo de produção brasileiro 51% maior do que na Argentina e 24% superior ao Uruguai no arroz, por conta da impossibilidade de importação de insumos, maquinários e outros produtos necessários à produção, o que inflaciona o mercado nacional, já impactado pela alta tributação, e facilita a entrada do produto estrangeiro.
Por fim, a carta a Maggi atenta para uma atuação “precisa” do governo ao investir em mecanismos de comercialização. Na visão da entidade, leilões de PEP e Pepro “há muito não atingem seus objetivos, pois as indústrias têm visto tais mecanismos como oportunidade de aumentar ainda mais os estoques com subsídio do governo, reduzindo a liquidez do mercado e retirando as forças de alta nos preços”. Faria mais sentido, portanto, incentivar a exportação do grão.

Outros grãos
O cenário econômico da cultura do milho, com cotações que chegaram a estar 42% abaixo do mesmo período do ano passado, desestimulou o agricultor gaúcho a investir na cultura. A Emater-RS projeta 730 mil hectares com o grão em 2017/2018, menor área já registrada na série histórica e 11% inferior ao índice da safra passada. Cerca de 75% da área de milho estava semeada no Estado no início de novembro. “As expectativas de produtividade são muito boas entre os produtores”, afirma o documento.
Já os produtores de soja gaúchos seguem com a dessecação e o preparo das áreas para o plantio, que deve se intensificar em novembro, informa a Emater-RS. No momento, a área semeada atinge 9% do total projetado. A colheita do trigo teve continuidade sem maiores contratempos, alcançando 35% da área semeada.
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