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Nº 414 - ANO 32 - MARÇO DE 2018
 
Trajetória é marcada por grandes bandeiras
 
O sucesso é hoje atribuído, entre outros motivos, à personalidade forte e aos posicionamentos firmes do dirigente - o que chegou a fazer com que o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, em certa altura, preferisse não o ver em reuniões, porque era muito contestador. Sperotto soube levantar grandes bandeiras, como a renegociação das dívidas no campo, a liberação do plantio de transgênicos e a defesa do direito de propriedade, mobilizando a sociedade rural brasileira.
A primeira delas começou antes mesmo de ser eleito presidente da Federação da Agricultura do Estado. Representantes do setor, indignados com a transferência de resultados ao sistema financeiro e sucessivos planos econômicos que só aumentaram a dívida dos produtores e inviabilizavam a atividade rural, pediram à CNA que esta criasse uma Comissão Nacional de Crédito Rural, em 1993. A presidência coube a Carlos Sperotto, que deu início a contatos regulares com parlamentares.
Numa das conversas, o deputado federal Victor Faccioni sugeriu a criação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Endividamento Agrícola, que se tornou realidade naquele mesmo ano. “Por ansiedade e por falta de posicionamentos, fomos induzidos a um endividamento. Essas posições exigiram do nosso setor uma presença muito forte, uma presença em Brasília”, lembrou Sperotto em discurso no aniversário de 90 anos da Farsul, em maio do ano passado. “O Congresso todo nos ouviu”.
Por quase uma década, Sperotto foi o principal negociador dos produtores rurais na questão. Ex-presidente da CNA, Antônio Ernesto de Salvo afirmou, em 1999, que em alguns momentos achava que Sperotto não era mais gaúcho “de tanto que ele vivia e trabalhava em Brasília pela bendita vontade de organizar os débitos passíveis de nossa classe”.
A solução veio somente em outubro de 2001, quando o governo publicou uma Medida Provisória que renegociou o total da dívida securitizada em 25 anos. O produtor rural brasileiro buscou, assim, uma cobrança justa do débito. Mas não foi uma decisão conquistada sem barulho - e à frente das principais mobilizações do setor nos anos mais recentes sempre esteve a Farsul.
Em julho de 1999, a Federação foi uma das mais atuantes no movimento “Semente no chão”, que teve a participação de 10 mil produtores em nove pontos do Estado. No mês seguinte, a Farsul promoveu ato público na praça Professor Saint Pastous de Freitas, em Porto Alegre, como forma de organizar um nova - e maior - mobilização rumo a Brasília. “Precisamos de soluções para questões como a dívida agrícola, a renda do produtor e o respeito ao direito de propriedade”, disse, à época, o presidente. Foi chamada de Movimento Acordo Rural, levando centenas de produtores rurais gaúchos em caminhões, ônibus e carros leves de Erechim para a capital federal. Para sempre será lembrado, porém, como o “caminhonaço” em Brasília. O objetivo era justamente a aprovação de um projeto de lei para renegociação das dívidas.
Ainda sem resposta à altura, a Farsul protagonizou novo movimento em 2001: a Cavalgada da Integração em Defesa da Produção Rural. Foram quase dois meses e 1,8 mil quilômetros de viagem, com partida em Passo Fundo, no mês de junho, até Brasília. Ao final da jornada, os cavaleiros foram recebidos pelo presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, e o presidente da Câmara dos Deputados, Aécio Neves, para os quais entregaram uma carta de reivindicações. Ainda que algumas não tenham solução até hoje, como o seguro agrícola, as negociações resultaram, tempos depois, na securitização, medida decisiva para o setor que reestruturou o passivo.
Os primeiros anos da gestão de Sperotto na Farsul também foram tensos por conta do período fortemente marcado pelas invasões de terra no Rio Grande do Sul. A resposta foi firme, como sempre: o direito de propriedade é inegociável. E a entidade tratou de resolver, pelos meios legais, a reintegração de posse em diversos locais do Estado, sem nunca apelar à violência. Prova disso foi o “Maio Verde”, uma carreata pacífica de 2,5 mil quilômetros, em 2004, que atentou para o problema e era uma resposta ao “Abril Vermelho” do Movimento Sem Terra (MST).
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