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Nº 414 - ANO 32 - MARÇO DE 2018
 
Farsul esteve na vanguarda na questão dos transgênicos
 
Ainda que discutisse o assunto desde a década anterior, a Farsul voltou as atenções com mais força para a questão dos transgênicos em 2003. A adoção da biotecnologia seria um dos principais motivadores do boom da produção de grãos nos anos seguintes.
A pressão nacional foi iniciada por Sperotto, primeiro ao demonstrar a autoridades os prejuízos que um embargo à soja melhorada poderia trazer, cerca de R$ 13 bilhões na época ao Estado, e depois ao liderar mobilizações em defesa dos transgênicos, que reuniram milhares de agricultores. A tribuna da Expointer também foi palco recorrente do pleito.
Em março daquele ano, o Ministério da Agricultura acatou pedido do setor produtivo gaúcho e criou grupo de trabalho para pensar medidas de regularização da comercialização dos geneticamente modificados. O governo liberaria a venda dias depois, por meio de Medida Provisória, aprovada depois pela Câmara dos Deputados.
A Farsul ainda realizaria fóruns pelo Estado sobre os transgênicos (chegou a reunir 15 mil numa edição) e levantaria o tema em audiência com o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas essa reunião foi motivada, principalmente, pelo fato de que, na mesma época, a tensão crescia entre os produtores e o MST.
Uma coluna do movimento que marchava em direção a São Gabriel chegou a ser barrada por cerca de 4 mil agropecuaristas, que reclamavam de desapropriação no município (mais tarde anulada). A mobilização foi interrompida por conta de acordo selado entre o Procurador-Geral de Justiça do Estado, Roberto Pereira, e o presidente da Farsul, Carlos Sperotto. Mas este avisou: “Se eles voltarem a marchar, os produtores retomam a mobilização. Estamos em uma paz vigiada”. Poucos dias depois, a Farsul chegou a entregar aos ministérios públicos estadual e federal uma queixa-crime contra o líder do MST, João Pedro Stédile, sugerindo pedido de prisão por formação de quadrilha e incitação à violência.
O perfil agregador de Sperotto, uma de suas marcas, foi responsável, ainda em 2003, pelo lançamento do programa Juntos para Competir, parceria entre Farsul, Senar-RS e Sebrae/RS. Era sua “menina dos olhos”, de acordo com pessoas próximas ao dirigente, porque unia as entidades em favor da organização das cadeias produtivas do Estado.
No final do ano, os transgênicos voltaram à pauta, com a liberação provisória do plantio às vésperas da safra - fato que aconteceria com muita polêmica no ano seguinte. Após uma recusa inicial do presidente Lula, Sperotto perdeu a paciência. Disse que o produtor “não iria esperar pelo governo” e que não estavam dispostos a ir a Brasília: “Agora, nós temos que pressionar é o solo para introduzirmos a semente”. A MP veio, e novamente a Farsul liderou movimento de aprovação no Congresso Nacional. O martelo foi batido finalmente em 2005, com a aprovação da lei da biossegurança pela Câmara dos Deputados. Nas galerias do plenário, o olhar convicto de Sperotto acompanhava a votação.
A entidade também deu início, naqueles anos, à discussão “Trigo: sim ou não”, por conta da difícil situação que já assolava a cultura no Estado. Até hoje a questão não foi resolvida, e o próprio presidente afirmou à imprensa, em maio, que não resolver a situação da lavoura do trigo, tão importante na rotação de culturas, foi a maior frustração de sua trajetória como dirigente da Farsul.
Em 2005, a necessidade de ampliação de recursos para a produção rural resultou em “tratoraço”, que reuniu mais de 10 mil produtores no Rio Grande do Sul. Eles partiram de Esteio à Capital, num comboio formado por 362 tratores, 240 caminhões e 112 ônibus. A pressão, ocorrida em todo o Brasil, resultou na liberação de mais R$ 1 bilhão para apoio da comercialização de produtos excedentes, decisão costurada por Sperotto e outras 17 lideranças do setor em encontro com o presidente Lula. Mais tarde, o tratoraço chegou à Esplanada dos Ministérios, onde mais de 25 mil produtores brasileiros denunciaram a crise no campo, ocasionada por quebra de safra, elevação dos custos das lavouras, dificuldade para quitação de dívidas e de acesso a créditos e juros elevados.
Mais tarde, outro episódio marcante de Sperotto à frente da Farsul foi a atuação em favor de alterações no Código Ambiental. Eventos no interior discutiram a questão, regularmente, a partir de 2009, de forma a garantir a manutenção da produção agrícola. Num deles, disse que às vezes não se vence batalhas com os maiores exércitos, mas com as melhores estratégias. “O exército, muito bem armado com uma arma moral, está disposto a sentar e construir soluções”, disparou. Uma mostra da política de resultados que não ficará apenas na memória do dirigente, mas deverá ser mantida na Farsul nos próximos anos.
Em 2011, a mobilização novamente tomou conta do setor. Cerca de 24 mil produtores rurais pressionaram pela legalização das áreas consolidadas de produção em Brasília. Sopraram até berrantes ao microfone. O Novo Código Florestal foi aprovado no Congresso Nacional em 2012, às vésperas da Rio+20, conferência das Nações Unidas. “Estaremos em posição de cobrar”, arrematou o dirigente, sabendo que os olhares do mundo estariam, em breve, no Rio de Janeiro.
Nas décadas recentes, tornou-se evidente ainda a capacidade de diálogo do dirigente, fundamental para a aproximação das entidades empresariais gaúchas e para a consolidação do Sistema Farsul, a partir do fortalecimento do Senar-RS e da criação, anos depois, da Casa Rural - Centro do Agronegócio.
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