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Nº 414 - ANO 32 - MARÇO DE 2018
 
Farsul projeta safra menor, mas confia em melhores preços
 
Os produtores gaúchos colheram mais de 36,6 milhões de toneladas de grãos na safra 2016/2017, volume recorde que movimentou a economia do Estado, ajudou a pagar as contas e contribuiu para superávit na balança comercial. Só que uma brutal queda nos preços dos produtos agrícolas, que chegou a acumular 25% de retração e guarda relação com a maior oferta no mercado, comprometeu a renda no campo.
Agora, a expectativa do Sistema Farsul é de uma safra menor em 2018, mas que seja também um pouco mais remuneradora. “Teremos uma safra menor, porque a base do ano passado é muito forte. Mas isso também traz a expectativa de termos preços melhores, que possam compensar essa diminuição de produção com mais recursos no bolso do produtor rural”, afirmou o vice-presidente da Farsul, Gedeão Pereira, em coletiva de rádio com 78 emissoras de todo o Rio Grande do Sul, no dia 6 de dezembro.
O dirigente lembra que o clima foi “muito favorável em todo o Brasil” na safra anterior, elevando em 14,8% a produção gaúcha. Destaque para altas expressivas na soja (15,6%), no arroz (16,5%) e no milho (28,2%). Economista-chefe do Sistema Farsul, Antônio da Luz destaca ainda que a supersafra veio também da tentativa de produzir mais, considerando crescimento de 1,6% na área de plantio de grãos, principalmente em soja (1,4%) e milho (12,2%). Reconhece, porém, que o fator clima foi decisivo. “De longe, foi a maior safra da história, por conta de um clima espetacular. Chovia nos dias certos, e parava quando tinha de parar.”
Para a próxima safra, é possível afirmar desde já que a situação não será a mesma - problemas de natureza climáticas foram registrados em diversas lavouras, como a do arroz. A expectativa de produção é de 34,3 milhões de toneladas em 2017/2018, retração de 6,3%, conforme relatório da assessoria econômica do Sistema Farsul. São esperados recuos no volume colhido das principais culturas: soja (4,5%), arroz (8,4%), milho (10,2%) e trigo (5,2%). Dentre elas, apenas a soja mantém ritmo de expansão. As demais perdem espaço, reflexo da safra cheia e bolso vazio no ciclo mais recente. Mesmo assim, caso confirme os números, será a segunda maior safra de grãos da história no Estado, só abaixo da última.

Pecuária
A queda na remuneração da pecuária de corte teve menos a ver com a crise econômica brasileira e a oferta interna e mais com questões pontuais que atingiram o setor. Pereira lembra que houve pelo menos duas crises em 2017. A primeira foi a repercussão da Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal em março. “Essa teve menor impacto nos negócios, porque o governo foi ágil em comprovar ao mundo que as questões eram pontuais”, avalia Pereira, destacando que o Brasil exporta 20% da produção e o mercado externo é um forte balizador de preços.
O momento mais problemático, segundo o dirigente, foi a delação premiada da JBS, maior grupo de proteína animal do mundo. “A delação premiada detonou os mercados. Eles fecharam plantas frigoríficas no Brasil Central, e o preço da arroba do boi, que estava em R$ 150 (beirava os R$ 160 no RS, por conta das bonificações), caiu para R$ 138. Isso fez com que viesse carne para o Estado a preço muito baixo, derrubando as cotações aqui também”, explicou.
A pecuária de leite, por sua vez, foi fortemente impactada pela queda no consumo das famílias e as importações do produto de outros países, sobretudo do Mercosul. O setor chegou a acumular queda de 20% na remuneração nos dez primeiros meses do ano passado.

Crédito rural
O Sistema Farsul ainda fez duras críticas ao anúncio de recursos do Plano Safra e às taxas de juros estabelecidas para o programa de apoio à agricultura brasileira. Gráfico elaborado com base em dados do Banco Central mostram que os recursos anunciados cresceram substancialmente desde 2013/2014, enquanto o valor tomado se manteve estável. O motivo é que os recursos dependem dos depósitos à vista e em poupança, que foram afetados pela crise econômica. Enquanto o governo anunciava de um lado, os bancos, sem alternativas, aumentavam a seletividade do crédito para a conta fechar.
Em relação ao ano safra passado, os recursos tomados tiveram queda em custeio (13%), comercialização (23%) e investimento (6%). “Mas o mais grave é que, pelo número de contratos, perdemos 20% dos produtores no custeio, 36% no investimento e 31% na comercialização. No geral, a cada quatro produtores que tomaram crédito em 2015, um deles não conseguiu em 2017”, mostrou da Luz.
Outra forte reclamação foi quanto aos juros do Plano Safra. Projeção da assessoria econômica do Sistema Farsul indica que a taxa Selic, que serve de referência para todas as demais taxas de juros da economia, deve ficar em 7,4% ao ano na média da safra 2017/2018. O valor é menor do que o juro médio de custeio e comercialização no Plano Safra (8% a.a.) e de investimentos (9% a.a.). “Ou seja, a taxa Selic está abaixo do que os produtores estão tomando. É mais inteligente tomar fora (do programa). Por que a festividade então?”, questionou o economista.

Temas para 2018
Pereira abordou ainda outros assuntos que marcaram o ano passado e devem seguir em evidência em 2018. Um deles é o plano para retirada gradual da vacina contra a aftosa no Brasil. O Rio Grande do Sul, conforme o cronograma, deixaria de vacinar em 2021. “A entidade é cética a respeito da retirada pura e simples da vacina, sem pré-requisitos”, disse.
Os altos custos de produção brasileiros em relação a vizinhos do Mercosul e a possibilidade de firmar acordo de livre comércio com a União Europeia também estarão na pauta. Quanto aos desafios do sistema sindical, o dirigente ressalta a representatividade que há no setor, o que faz com que o produtor pense nele sempre que tem um problema. “Ninguém é maior nesse país em termos de representação do produtor rural. Se deixar de existir, ele vai sentir saudades”. Pereira lembrou também dos 90 anos da Farsul, completados em maio, e falou sobre a trajetória recente da Federação.
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