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Nº 418 - ANO 32 - JULHO DE 2018
 
Pelotas, desde a Europa - Blau Souza*
 
Dividido entre Porto Alegre e o campo, não deixo de viajar, e isso tem ampliado horizontes e enriquecido a mim e a minha mulher com novos amigos surgidos em terras estranhas e, sobretudo, entre os companheiros de viagem. Como é gostoso reavivar laços com nossas terras, quando distantes e vistas com um misto de nostalgia e de saudade. Isso aconteceu em recente viagem aos países escandinavos e à Rússia. No grupo estavam Cláudio e Regina Xavier, casal de Pelotas, ambos realizados em suas atividades no comércio e no ensino universitário. Eles, após as apresentações, tiveram de aguentar minha curiosidade a respeito do pai de Regina, o senhor Darcy Trilho Otero, partícipe da grandeza pelotense e conhecedor profundo da cultura e da história da zona sul. Tudo foi facilitado quando seu Darcy, um nonagenário lúcido e ativo, resolveu participar das tertúlias à distância. Os contatos continuaram além do final da viagem e muito mais através de cartas manuscritas do que por meios eletrônicos. E a correspondência foi enriquecida com troca de livros e de documentos, não raro com trechos sublinhados, ou com anotações feitas com letra firme e decidida. O livro, Actas – a classe rural resgatando as raízes da sua história, é belíssimo e foi editado em 2008 com a coordenação dele e de Elmar Hadler. Ricamente ilustrado, apresenta as atas das sessões do Primeiro Congresso Agrícola do Rio Grande do Sul, ocorrido em outubro de 1908. Além das atas, há conclusões das trinta e duas teses que foram apresentadas por pessoas ilustres como Guilherme Minssen, Ildefonso Simões Lopes, Manoel Luís Osório, Severino Sá Britto, Joaquim Luís Osorio, Leonardo Brasil Collares, Balbino Mascarenhas, Theodoro Amstadt e muitos outros. Foi presidente efetivo do congresso o Dr. Ildefonso Simões Lopes e, de honra, o Dr. José Cypriano Nunes Vieira. O Dr. Joaquim Francisco de Assis Brasil foi um dos conferencistas e o escritor João Simões Lopes Neto, uma das figuras mais atuantes. Mas o livro é mais ambicioso e buscou especialistas para tecerem comentários atuais (2008) sobre as 32 teses apresentadas cem anos antes. Muitas delas continuam atuais, poucas foram superadas pelo progresso em determinadas áreas. Dito congresso marcou mais um dos muitos pioneirismos de Pelotas, numa época difícil, logo após a triste Revolução de 1893. Afinal, foi lá que surgira a Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel, instalada como Imperial Escola de Medicina Veterinária e de Agricultura Practica, que formou sua primeira turma em 1895 e logo passou a publicar a Revista Agricola do Rio Grande do Sul. A Associação Rural de Pelotas surgiu em 1889 com o nome de Sociedade Agricola e Pastoril do Rio Grande do Sul. E já em abril de 1899 realizou sua Primeira Exposição Agricola. O congresso que noticiamos foi organizado para comemorar o décimo aniversário da Associação.
Mas o amigo Darcy Trilho Otero enviou também precioso livro com as crônicas do saudoso José Collares e sua apreciação crítica; além de vários exemplares da revista do Instituto Histórico e Geográfico de Pelotas, de que é membro efetivo e atuante. E o que dizer das suas crônicas sobre os leilões pioneiros realizados no “condado” de Pedras Altas, nos anos cinquenta, quando os trens representavam a principal ligação entre Bagé, Rio Grande e Pelotas, e quando a Estância São Francisco em tempos de seu amigo Francisco Py Crespo, o Chico Crespo, sediava tais remates. Como aluno da Eliseu Maciel, Darcy iniciou-se nas atividades associativas, pois foi presidente do centro acadêmico. Membro de muitas entidades, Darcy foi presidente da então Sociedade Agrícola de Pelotas nos anos 1966-1967, o último antes que a entidade passasse à Associação Rural. Como agrônomo e empresário rural, muito realizou. Hoje o destaco como escritor, memorialista e profundo conhecedor da história e da cultura dos gaúchos e de seus pagos ou querências.

*Médico e escritor
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