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Nº 420 - ANO 32 - SETEMBRO DE 2018
 
Setor orienta produtores de leite a cortarem custos
 
A tão esperada recuperação de preços do leite não veio. Depois de registrar alta em novembro como reflexo da suspensão das importações de leite do Uruguai, o valor projetado pelo Conseleite para dezembro é de R$ 0,8369 - 3,83% abaixo do consolidado no mês anterior (R$ 0,8702). Por conta disso, o grupo decidiu orientar aos produtores que reduzam os custos de produção e, consequentemente, a oferta interna. É o jeito de buscar melhor equilíbrio na cadeia produtiva e tentar viabilizar novamente a atividade. “Fizemos todo um trabalho de melhoria de mercado, que até sinalizou recuperação, mas agora retroagiu. O produtor precisa se reassegurar, incluir em seu planejamento a redução de custo. A situação é grave”, afirma o presidente da Comissão do Leite da Farsul, Jorge Rodrigues.
O dirigente explica que cada produtor deve adequar a produção individualmente, conforme sua realidade, mas que a ação no campo provavelmente envolverá descarte de vacas que apresentam longos períodos de lactação ou que estejam no final da vida útil e revisão da dieta alimentar do rebanho. O Conseleite ainda aponta que uma possível redução de 10% na produção, consequência dos cortes nas propriedades, poderia reabilitar a atividade, trazendo novamente margens interessantes pela relação de oferta e demanda. “É consenso que a situação está péssima para o setor, tanto para a indústria quanto para o produtor”, diz o presidente do Conseleite, Alexandre Guerra, também à frente do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados (Sindilat).
Relatório da assessoria econômica do Sistema Farsul estima alta de 4% na produção de leite gaúcha em 2017, chegando a 3,37 bilhões de litros. O consumo de lácteos, por outro lado, caiu 5% entre 2013 e 2016, estando hoje em 166 litros per capita/ano, segundo o Rabobank. “A crise econômica atingiu todos os setores, e o Brasil exibiu três anos de queda consecutivas do PIB, afetando diretamente o consumo das famílias, que desde 2014 já retraiu 11%”, informa o documento. A consequência é uma queda acumulada de 20% na remuneração pelo leite nos dez primeiros meses do ano passado, com base em números do Cepea/Esalq. O valor de outubro foi o menor desde janeiro de 2016.
A situação, mostra o estudo, derruba os preços em todos os elos da cadeia, mas é pior para o produtor. “A indústria é livre para adquirir leite mais barato dos países vizinhos e recompor suas margens, já os produtores são compelidos a vender o seu leite no mercado interno, pois não tem as mesmas vantagens do setor industrial”. Lembra a seguir que a compra de leite uruguaio e argentino afetou diretamente a cotação interna ao longo do ano, e que eles apresentam custos de produção menores e possuem as mesmas condições de comércio que o produtor nacional.
O Conseleite atribuiu a nova retração no valor de referência do leite em dezembro ao período de festas de fim de ano, que impacta o consumo de lácteos. A queda foi puxada pelo leite UHT (-6,51%) e em pó (-2,31%), os dois itens mais importantes na composição do mix das indústrias gaúchas.
O setor espera ainda que, depois da retomada da importação de leite uruguaio, o governo cumpra de fato promessas de compensação, como formação de estoques (foram aprovados R$ 12 milhões em recursos pelo Ministério do Desenvolvimento Social em novembro do ano passado), e mecanismos como preço mínimo, recuperação de créditos tributários PIS e Cofins destinados a produtores, além de regime de cotas para importação de produtos estrangeiros.

Conseleite aprova novos parâmetros de cálculo
A reunião mais recente do Conseleite também foi marcada pela aprovação de novos parâmetros de cálculo para o valor de referência do produto, que passam a vigorar a partir deste mês. A atualização demandou dois anos de pesquisa por parte da câmara técnica do grupo e corrige defasagem de cerca de 9% nos custos de produção na indústria e nos tambos, considerando as mudanças tecnológicas ocorridas desde 2005, de quando datava o último levantamento.
A medida traz mudanças substanciais de rendimento na indústria e na participação da matéria prima em cada derivado, segundo o professor da Universidade de Passo Fundo (UPF) Marco Antonio Montoya. O valor de referência gaúcho também deverá estar mais alinhados com os de Santa Catarina e Paraná, que já implementaram ajustes. A câmara técnica é formada por dois representantes dos laticínios e outros dois da produção rural, além da equipe técnica da UPF, contratada para tabulação e análise dos dados publicados mensalmente.
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