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Nº 418 - ANO 32 - JULHO DE 2018
 
Gedeão Pereira: papel da Farsul é minimizar impacto das crises ao produtor
 
Produtor rural de Bagé, com uma vida dedicada ao setor dentro e fora da porteira, o médico-veterinário Gedeão Silveira Pereira, 68 anos, chegou à presidência da Farsul sem ter pedido. Substitui até o final do ano o líder ruralista e amigo pessoal Carlos Sperotto, que faleceu em dezembro após liderar a entidade por 20 anos e com quem diz ter aprendido muito. O desafio agora é conciliar o trabalho de ponta e algumas vezes pioneiro que faz na Estância Santa Maria, desde a década de 1970, com as dezenas de atividades da Federação. “A Santa Maria é o sinônimo da minha vida, pela intimidade que sempre tive nos negócios da terra, e traduz bem o que penso sobre a atividade: ela deve abraçar a evolução tecnológica”, disse o novo presidente da Farsul, em entrevista ao Sul Rural, reproduzida nesta edição.

Sul Rural - O senhor assumiu a presidência da Farsul, uma entidade de 90 anos. Qual o peso disso?
Gedeão Pereira - É um momento ímpar, principalmente por suceder um grande presidente, que esteve à frente da entidade por 20 anos. Fiquei muito honrado pela escolha de Carlos Sperotto de me colocar como vice nos três últimos mandatos. Durante esse tempo de convivência, além de um extraordinário líder, tive um grande amigo, com quem aprendi muito. E isso acaba também por aumentar a responsabilidade - aos 90 anos, a Farsul se dividiu entre dois presidentes, o que se foi e o que chegou.

SR - Como é o produtor rural Gedeão Pereira?
Pereira - Sempre pautei a minha vida pelo avanço tecnológico dentro do agronegócio. A primeira propriedade do Brasil a reduzir a idade de abate para 24 meses foi a Estância Santa Maria, de Bagé, nos idos dos anos 1970. A partir de então, ela nunca mais parou. Fomos aos limites fisiológicos da pecuária, tanto em termos de redução da idade de abate quanto do primeiro entoure (a 14 meses, quando os animais recém entram na puberdade). Desenvolvemos também a parte agrícola há pelo menos 40 anos, com o arroz. Mais recentemente, com o advento da soja na metade sul do Estado, considerada fronteira agrícola, entramos com a cultura, buscando evoluir e trabalhando fortemente a irrigação por meio de pivô central. Ainda temos alguma coisa em eucaliptos, como um produto a mais dentro da diversificação, além da comercialização de reprodutores da raça Hereford (cria, invernada e engorda) e de sementes forrageiras em marca própria. Acredito muito no sucesso pela tecnologia, e não tenho dúvidas de que o agronegócio brasileiro está avançando cada vez mais graças a ela. Deve ser o norte de qualquer propriedade rural.

SR - E o líder sindical?
Pereira - A verdade é que nunca pensei em ser. Em 1992, havia duas entidades rurais apartadas em Bagé: o sindicato e a associação rural. Aí houve um movimento de base - gosto muito deles - no sentido de fazer algo para melhorar a economia da região, que estava decadente. Uma das colocações era pela unidade da representação dos produtores. A ideia era juntar as duas grandes casas: a associação, muito importante e uma das mais antigas do Brasil (foi fundada em 1904), e o sindicato rural, que era menor, mas tinha relevância. Fui então proposto como primeiro presidente dessa nova configuração, entre três nomes. E foi um período extremamente difícil. Implementamos uma filosofia que vigora até hoje, que chamamos de Novo ruralismo, e enfrentamos fortemente MST (Movimento Sem Terra) e Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) contra as invasões de terra e as vistorias que visavam a tirar as propriedades do produtor rural. O Estado brasileiro nos atacava justamente naquilo que não negociamos, o direito de propriedade, que é o calcanhar de Aquiles do produtor, por meio da desapropriação em diversos locais de Bagé e região. A partir dessas grandes movimentações, entrei na Farsul, a convite de Sperotto, ainda no primeiro mandato, para dirigir a Comissão Fundiária da entidade - ouso dizer, a mais difícil na época. Passei então a diretor, depois vice. E por ironia do destino, assumo a presidência da Federação também sem ter pedido.

SR - Mas sente estar preparado?
Pereira - O tempo dirá se estou ou não, nesse exercício curto que teremos. Não estou preocupado com quem sentará na cadeia de presidente daqui a um ano: estou preocupado em buscar uma unidade, uma integração dentro do Sistema Farsul. Essa tem sido a proposta já nesse primeiro mês de mandato, olhar a administração como um todo. Se essa obra for aprovada pelos nossos sindicatos rurais, que são os nossos verdadeiros clientes, então quer dizer que tive sucesso. Mas é claro que me sinto confiante, com uma vida trabalhando dentro do sistema sindical, como empresário e empreendedor que me considero, com essa bagagem que a administração da Santa Maria, uma grande propriedade, me deu.

SR - Como fica a Estância?
Pereira - É fato que a presidência absorve mais meu tempo que a propriedade hoje, mas não abrirei mão dela. O que me credencia a estar aqui é meu filho, braço direito e esquerdo, que está gerenciando a Santa Maria com plena capacidade. Assim como eu aprendi muita coisa sobre sistema empresarial com meu pai e sobre sistema sindical com Carlos Sperotto, acredito que ele também tenha tido essa herança de mim. Estou tranquilo, embora continue com os pés lá dentro, porque “olho do dono que engorda o boi” é um ditado que não muda.

SR - Que ações a Farsul está planejando para o ano?
Pereira - O rumo da casa é o mesmo que Sperotto imprimiu nas duas últimas décadas: uma Federação que olha com objetividade o futuro, que alicerça as demandas do campo e que está aqui para resolver os problemas dos produtores rurais, que são a razão de existir a entidade. O que estamos propondo é intensificar as relações entre a representação política do sistema, a Farsul; o núcleo educacional que leva treinamento e capacitação ao produtor, o Senar-RS; e o braço de comercialização, a Casa Rural. É possível melhorar a integração dessas entidades, assim como remodelar a atuação do Senar-RS, chegando ao produtor rural naquilo que é fundamentalmente a sua missão: treinamento de mão de obra especializada para a evolução tecnológica do agronegócio. Hoje, é muito mais fácil comprar um trator de última geração do que achar quem sente nele. E a Farsul, na área política, tem de estar atenta para minimizar os impactos das crises aos produtores. Assim como elas vêm, elas vão embora. Só que eles precisam se manter vivos na atividade até a época de bonança, que traz novos investimentos.

SR - A interiorização das atividades do Sistema Farsul tem relação com essas questões?
Pereira - Tem tudo a ver. Estamos chamando de Farsul em campo. Estaremos reunidos, no dia 6 de fevereiro, com a Regional 10, em São Sepé. A ideia é levar às diretorias dos sindicatos, não somente os presidentes, toda a problemática que estamos atravessando agora e o que planejamos para a entidade. Toda a diretoria do Sistema Farsul - estamos falando aqui em Farsul, Senar-RS e Casa Rural, mais os conselheiros do presidente - estará reunida com as 13 regionais da Federação, para pensar ações e colher subsídios dos produtores, que estes estabeleçam a nós suas demandas. É uma oportunidade única, seguramente inédita, que vamos vivenciar.

SR - De cara tivemos essa forte ação no ano, sobre o mercado do arroz. Foi uma boa largada?
Pereira - As dificuldades na lavoura de arroz estão sendo um teste nesse início de gestão. Tiramos o secretário de Política Agrícola do Mapa (Neri Geller) de férias e saímos para Brasília, com um pacote de soluções, e conseguimos recurso de R$ 100 milhões para leilões de PEP e Pepro, que já está tendo reflexos no mercado hoje. Era um trabalho que vinha sendo feito pela nossa assessoria econômica há vários dias, e o anúncio das medidas coincidiu com o movimento Te Mexe, Arrozeiro (em Restinga Seca). Foi uma grande vitória da Farsul. Para isso estamos aqui.

SR - O senhor também deu início em janeiro a uma série de visitas a federações empresariais. O que pensa sobre essa atuação conjunta?
Pereira - É algo que foi semeado pelo presidente Sperotto e que estamos tratando de levar efeito. O principal resultado disso, a parte mais visível, é que seguiremos à frente do Conselho Deliberativo do Sebrae/RS até o final do ano (a posse é em 20 de fevereiro). Foi proposto pela Fiergs, secundado imediatamente pela Fecomércio, referendado a seguir por FCDL-RS e Federasul. Isso mostra a unidade das federações, que em homenagem ao presidente, quiseram que a Farsul cumprisse o mandato que lhe cabe. Temos entre os presidentes das federações uma relação muito boa e que rende frutos.

SR - Quais os maiores desafios que enxerga para a agropecuária hoje?
Pereira - Viemos de um período recente de supervalorização das commodities agrícolas no mercado internacional, e hoje entramos no período em que essas mesmas commodities perderam valor. Esse cenário é de grande dificuldade ao setor, que nos últimos anos fez investimentos vultosos em tecnologia, equipamentos, genética animal e vegetal e qualificação de mão de obra. As vendas expressivas em feiras como Expointer e Expodireto são contas que hoje o produtor precisa pagar. Mas precisamos passar por esses momentos porque melhores virão: os mercados mundiais cada vez demandam mais produto brasileiro. Em 2050, a previsão é de que sejamos 9 bilhões de seres no planeta, enquanto as fronteiras agrícolas no resto do mundo estão se exaurindo. O mundo todo olha para o Brasil. Além da grande extensão territorial, temos boas condições naturais de água, solo e clima e, principalmente, produtor capacitado e investimento em pesquisa. Precisamos então proteger esse agricultor, para que ele seja impactado o mínimo possível pelas crises econômicas e climáticas que se repetem.

SR - O ano é de eleições para os mais altos cargos políticos do Estado e do País. O que a Farsul espera?
Pereira - A Farsul, no espectro político e ideológico, sempre teve lado. Ela detém um pensamento empresarial muito forte e defende um Estado menor, tratando de Brasil, Rio Grande do Sul e municípios. O povo brasileiro não consegue mais carregar este Estado que está colocado. Tudo cresceu muito, e por isso não há tributos que equilibrem as contas. O Estado brasileiro passou a ser o fim, e não mais o meio. Precisamos que ele desinche, que diminua as pessoas em seu entorno, e que cesse a tentativa empreendedora, porque sempre foi mau empresário. Ele tem é de cumprir funções de saúde, educação, segurança e infraestrutura, que são papéis preponderantes. Essa é uma visão liberal, em que a missão social se faz pela via do empreendedorismo, e que vamos levar ao conhecimento da população. Temos por experiência no mundo que o socialismo acaba quando termina o dinheiro dos outros.
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