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Nº 420 - ANO 32 - SETEMBRO DE 2018
 
Editorial
 
Dizem que, em parte da sociedade gaúcha e à boca pequena, criou-se um mito nos últimos anos de que o arrozeiro gaúcho reclama demais. De certa forma, o presidente da Comissão do Arroz da Farsul, Francisco Schardong, respondeu a possíveis críticas do gênero ao declarar que a 28ª Abertura Oficial da Colheita do grão será um muro “de projetos”, e não de “lamentações”.
A verdade é que, se reclamações são recorrentes num setor da economia, é sinal claro de que alguma coisa não vai bem. Ou várias coisas, como parece ser o caso. É simples assim: movimentações da produção volta e meia aparecem porque as crises também não dão descanso. E a mais recente delas veio avassaladora como poucas vezes antes.
Como ficar calado frente a uma redução de 24% na remuneração do arroz de um ano para o outro? Difícil imaginar que qualquer trabalhador brasileiro aceitaria de bom grado receber um quarto a menos do salário durante 12 meses. Mais ainda sabendo que, no mesmo período, entregou um dos melhores trabalhos de sua história, praticamente inigualável no mundo. Para quem não sabe, a produtividade média do arroz na safra passada foi de 7.914 quilos por hectare no Estado, numa área de mais de 1 milhão de hectares.
Às vésperas da colheita, em plena entressafra, os preços praticados do arroz não cobriam o custo de produção variável, que não leva em conta depreciação, valor da terra e remuneração por capital investido. Estoques de aproximadamente 1,2 milhão de toneladas do produto no mercado interno pressionam para baixo as cotações. Além de tudo, a indústria - no seu direito, mas talvez não no dever, considerando que sem arrozeiro para plantar ela não sobrevive - compra produto importado, sobretudo do Paraguai, buscando as maiores margens possíveis. E o produtor vive apreensivo: a nova safra será colhida, os alongamentos de custeio estão vencendo, é preciso aceitar comercializar o produto armazenado, se ainda não o fez, a valores irrisórios.
Do olho do furacão, o Sistema Farsul cumpriu o seu papel como entidade: minimizar o impacto das crises ao produtor, nas palavras de seu novo presidente, Gedeão Pereira. Foi a Brasília buscar leilões que ajudem a escoar os estoques para fora do Brasil e, pela solidez com que apresentou o plano, ganhou garantias imediatas de que serão aplicados até o início da colheita. Vale lembrar que PEP e Pepro são mecanismos de apoio à comercialização técnicos e de direito, e não benesses oportunistas, porque têm como critério o preço mínimo estipulado há meses.
Sem dúvida, foi uma vitória para o meio rural, visto que gerou reflexos positivos no mercado antes mesmo da concretização dos pregões. Porém, o setor tem plena consciência de que essa é uma medida paliativa. Seguirá atacando os verdadeiros gargalos que cada vez mais comprometem a lavoura orizícola brasileira: os altos custos de produção em relação a concorrentes do Mercosul, por conta de uma política protecionista aos fornecedores de insumos e a extrema burocracia na importação de produtos, e a elevada e reincidente tributação brasileira.
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