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Nº 421 - ANO 32 - OUTUBRO DE 2018
 
Gafanhotos e muitas lutas - Blau Souza*
 
Há cem anos, em dezembro de 1917, virou notícia de jornal: Trem descarrilou e tombou fora dos trilhos próximo de Pedras Altas por causa dos gafanhotos. A oleosidade dos insetos acumulados e esmagados lubrificara por demais os trilhos do trem... Na minha infância convivi com as chamadas nuvens de gafanhoto. Tal era a quantidade de insetos voando, que encobriam o sol, trocavam o dia pela noite. E no solo a destruição era a regra. Não sobravam folhas nos arvoredos, nem lavoura ou pastagem. Até as cascas das árvores eram atacadas. E permaneciam por muito tempo as consequências do ataque. Lembro que minha mãe deixava de utilizar os ovos da casa por algumas semanas, pois o gosto do “óleo de gafanhoto” permanecia por alguns dias após a ingestão dos insetos pelas galinhas. As soluções caseiras passavam por bater latas, jogar água quente, usar vassouras ou ramos de árvores; sempre com os olhos semicerrados, boca fechada e respiração curta para evitar a penetração de insetos nos corpos dos combatentes. Restavam pequenas satisfações como evitar o ataque às roseiras ou às ervas utilizadas para chá. A praga é bíblica e está na origem de algumas das fomes agudas e generalizadas que se repetiam através dos séculos para desespero da humanidade. Ainda ao revisar tese sobre o assunto no Primeiro Congresso Agrícola do Rio Grande do Sul (1908), verifiquei que era preconizado o uso do fogo para controlar a praga na fase em que os insetos apenas saltavam, não voavam. Esta foi uma das poucas teses daquele histórico encontro que perderam a atualidade por completo.
Estou falando sobre gafanhotos e fenômenos naturais para fazer o elogio do homem quando toma a peito a defesa da natureza, mas sem deixar de alterá-la de forma decisiva quando necessário. Venenos, os defensivos agrícolas, acabaram com as nuvens de gafanhoto e muitas outras pragas. Também os códigos genéticos de plantas e de animais foram alterados pelo homem em busca de alimentos saudáveis, abundantes e mais resistentes a predadores e adversidades. Claro que houve e há excessos, mas a preservação da natureza e a felicidade dos homens sempre exigiram posicionamentos firmes em momentos cruciais. Cientistas de todo o mundo buscam soluções, mas elas serão ou não aplicadas dependendo da liderança dos setores responsáveis pela produção de alimentos. E tanto aí, como no trato de reforma agrária ideológica na base dos “sem terra” e das “ocupações”, não faltou liderança aos produtores gaúchos. Carlos Sperotto, com a coragem e a argumentação dos predestinados, jamais fugiu ao debate. Certo de que defendia a boa causa, mostrou o quanto o campo avança quando há tecnologia, planejamento e paz. Sempre defendeu a Farsul dos grandes, dos médios e dos pequenos produtores, e sempre esteve disponível para defendê-los, sem descanso. E como era bom sentir o seu entusiasmo a cada Exposição de Esteio, quando usava a tribuna para dizer verdades, fazer cobranças e reclamar recursos às autoridades de todas as esferas. Ficou inapagável sua imagem, encharcado, botas atoladas no barro, fazendo a entrega de prêmios a vencedores do Freio de Ouro em tarde de muita chuva. Apaixonado pela vida e pelo trabalho errava como qualquer ser humano, mas ninguém o batia na luta contra homens, estruturas e políticas quando ameaçavam o campo e a produção rural.
Houve tempo em que as grandes dificuldades eram comparadas às pragas e, nesse sentido, Carlos Sperotto, ao longo de muitos anos, lutou contra inúmeras “nuvens de gafanhoto”. Mas o fez como líder de produtores rurais diferenciados, carregados de história, tradição e conhecimento suficientes para acatar conquistas científicas e tecnológicas que ele jamais ignorou ou deixou de defender.

*Médico e escritor
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