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Nº 418 - ANO 32 - JULHO DE 2018
 
Safra da uva retorna à média histórica
 
Em 2016, uma quebra de 57% na safra da uva frustrou os gaúchos e teve grande reflexo na cadeia produtiva, criando dificuldades para abastecer o mercado. Um ano depois, o Estado teve a maior colheita da fruta de todos os tempos, com 753 milhões de toneladas, em decorrência de clima favorável em momentos críticos para a cultura. Agora, em 2018, a realidade é nem uma nem outra: são esperadas 600 mil toneladas de uva destinadas ao processamento, dentro da normalidade para a cultura. É cerca de 20% menor que o ciclo anterior. A abertura da colheita da uva aconteceu em 27 de janeiro, em Nova Pádua.
Uma das explicações para o recuo no volume colhido está no inverno mais recente, que teve pouco frio. A Embrapa Uva e Vinho registrou apenas 188 horas de temperaturas abaixo de 7,2ºC no município de Bento Gonçalves, abaixo da média (410h) e bem longe do registrado no ano anterior (530h). Com a baixa ocorrência de chuvas no período e as temperaturas mais altas de setembro, essa condição acabou adiantando as variedades precoces, o que é problemático, segundo a Emater/RS. A brotação e o florescimento ocorrem fora do momento ideal, resultando em considerável percentual de gemas vegetativas e floríferas cegas (inativas ou de baixo vigor).
Por conta disso, as primeiras uvas para processamento foram colhidas ainda na segunda quinzena de dezembro, cerca de 15 dias antes do esperado, conta o presidente do Ibravin e da Fecovinho, Oscar Ló. Por outro lado, as variedades tardias não teriam sido afetadas, por conta das noites de menor temperatura em dezembro, e podem inclusive prolongar a safra gaúcha para março.
Outro ponto negativo é que o retorno das baixas temperaturas nos meses de outubro e novembro teria afetado o florescimento e o pegamento da fruta. E mesmo a alternância de produtividade nas safras mais recentes pode ter impactado o ciclo. “A alta produção de frutas na safra passada impôs um consumo de nutrientes além do potencial de reposição da planta, deixando-a exaurida para o ciclo seguinte”, explica o engenheiro agrônomo da Emater/RS, Enio Ângelo Todeschini.
Mesmo com os problemas climáticos pontuais, produtores e indústria se mostram otimistas com o desenvolvimento da produção do campo, já que as condições climáticas em geral e o manejo adequado ao longo dos meses proporcionaram às uvas boa qualidade e níveis altos de graduação de açúcar. Deve resultar novamente, assim, em ótimos vinhos, espumantes e sucos de uvas 100%. “Devido à regularidade das chuvas e ao fato de as uvas estarem amadurecendo com clima mais seco, teremos uma excelente qualidade”, destaca Ló. “Se o clima continuar assim para a viticultura é muito bom, pois diminui o risco de doenças e melhora a maturação da uva. O cultivo ao longo do ano foi dentro do recomendado, com podas, adubação sem exagero e com plantas com cobertura de solo, o que evita a perda de água e nutrientes (erosão), deixando a videira sem maiores riscos”, completa Todeschini.
Contabilizando todas as uvas, não apenas as destinadas ao processamento, a projeção de colheita é de 750 mil toneladas. Segundo o Cadastro Vitícola, são cultivadas 138 variedades de uva no Estado, entre viníferas (destinadas à produção de vinhos finos e espumantes) e uvas americanas e híbridas (reservadas à elaboração de vinhos de mesa e sucos). Serra Gaúcha, Serra do Sudeste, Campos de Cima e Campanha são as principais regiões produtoras.

Demandas
A cadeia produtiva da uva, quarta maior cultura do Estado em termos de Valor de Produção, de acordo com levantamento anual da Fundação de Economia e Estatística (FEE), busca mudanças estruturais para sustentar a atividade, remunerando adequadamente produtores e indústria. É o que indica carta elaborada após audiência pública conjunta das frentes parlamentares federal e estadual de apoio ao setor, realizada durante a 2ª Tecnovitis, em Bento Gonçalves, ainda em dezembro.
Entre as reclamações do setor está o crescimento da entrada de vinhos importados, que estariam “tomando conta” do mercado, a aplicação insuficiente de subvenção ao seguro agrícola e a defasagem do preço mínimo em relação aos atuais custos de produção, apresentados na feira pela assessoria econômica do Sistema Farsul. O estudo inédito da entidade aponta que o produtor deveria receber, em média, 53% mais pela produção da variedade Isabel e 50% mais pela de Merlot apenas para empatar com o custo operacional de ambas: R$ 33,3 mil e R$ 30,5 mil por hectare, respectivamente.
Os principais pleitos levantados são mecanismos públicos e privados de remuneração por qualidade, melhores condições de acesso a tecnologias, investimento em pesquisa, financiamento com juro controlado (antigo EGF), reajuste do preço mínimo, implementação do Programa de Modernização da Vitivinicultura (Modervitis) e ampliação de recursos para assistência técnica e extensão rural. A Farsul assina o documento ao lado de 26 entidades, públicas e privadas, e parlamentares. Cerca de 110 produtores rurais, profissionais da área, autoridades e representantes do setor estiveram presentes na audiência.
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