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Nº 420 - ANO 32 - SETEMBRO DE 2018
 
Farsul cobra apoio ao setor arrozeiro em abertura da colheita
 
A Farsul e outras entidades do setor aproveitaram a presença de autoridades na 28ª Abertura da Colheita do Arroz, ocorrida em 23 de fevereiro, na Estação Experimental do Irga, em Cachoeirinha, para cobrar soluções para os “verdadeiros gargalos” da lavoura do arroz, nas palavras do presidente da Comissão do Arroz da Farsul, Francisco Schardong. As principais críticas estiveram na burocracia existente na importação de insumos e na elevada carga tributária, o que acaba por disparar o custo de produção brasileiro e criar uma concorrência desleal com os países vizinhos do Mercosul, que chegam a plantar arroz 51% mais barato, como é o caso da Argentina.
“Não podemos mais enfrentar essa situação apenas com remédios genéricos e paliativos”, disparou Schardong durante a solenidade, em referência aos leilões de PEP e Pepro da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab) envolvendo 300 mil toneladas, realizados no dia anterior. A medida foi um pleito da Farsul, apoiado imediatamente pela Federarroz, e teve como objetivo escoar os estoques remanescentes da safra passada ao exterior e fazer a cotação do saco de 50 quilos reagir no mercado interno.
Os pregões venderam 170,6 mil toneladas, sendo 15 mil toneladas para Santa Catarina e o restante no Rio Grande do Sul. Mas o setor espera que o número chegue a, pelo menos, 1,2 milhão de toneladas de arroz o mais breve possível, considerando que o produto está sendo colhido e a crise na cultura dificulta o armazenamento, à espera de melhores condições de venda. Também cobra a compra de 300 mil toneladas por meio de Aquisição do Governo Federal (AGF).
A questão é que, apesar de positivas, essas medidas nada mais são que ações emergenciais frente a um setor que enfrenta recorrentes crises, destacaram os representantes dos arrozeiros no evento. Ao lado do presidente do Sistema Farsul, Gedeão Pereira, e de outras lideranças do campo, Schardong fez um discurso intenso, em que cobrou “vontade política” para fazer mudanças estruturais na agricultura brasileira.
Pediu ao governador José Ivo Sartori que abra mão de alguns tributos, principalmente o Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) na exportação de arroz em casca para outros estados. “O que o Estado deixa de ganhar com isso é menos prejudicial do que um futuro sem arrozeiro para plantar”, afirmou ele. Também cobrou mais atenção à cultura por parte do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), representado no evento pelo secretário de Política Agrícola da pasta, Neri Geller. “É importante a presença aqui para levar o retrato real da lavoura de arroz a Brasília, porque os seus interlocutores parecem não estar transmitindo a gravidade da situação como deveriam”.
Até o final de fevereiro, os preços do cereal continuavam abaixo do valor mínimo (R$ 36 para RS e SC), de acordo com o Indicador do Arroz em Casca Esalq/Senar-RS, calculado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia (Cepea), da Universidade de São Paulo (USP). Do custo de produção real, as cotações estão ainda mais distantes, defende o setor primário.

Discurso alinhado
A solenidade de abertura teve manifestações similares entre as entidades, enfatizando basicamente os mesmos problemas. O presidente da Federarroz, Henrique Dornelles, afirmou que o produtor de arroz gaúcho vive uma “injustiça econômica”, pois entrega resultados expressivos e está “caindo em desgraça”. O Estado alcançou, na safra passada, a maior produtividade de sua história com o grão: 7.914 quilos por hectare, de acordo com o Irga, elevando a produção a 8,7 milhões de toneladas, gerando empregos e maior arrecadação ao poder público.
Dornelles disse ainda não ter dúvidas que o principal problema está nos custos de produção, mas lembrou que barreiras comerciais, como a cobrança de ICMS por outros estados ao produto brasileiro, enquanto o estrangeiro entra livre de impostos, também afetam gravemente a cultura. Reforçou então o pedido ao governador Sartori para redução maior do imposto nas operações e também na Taxa de Cooperação e Defesa da Orizicultura (CDO), além de cobrar fiscalização mais efetiva, por parte do Mapa, ao produto importado, questão que foi judicializada pela entidade nos últimos meses.
Outra liderança a discursar foi o presidente da Fetag-RS, Carlos Joel da Silva, que disse que o setor público, os bancos e as indústrias mantêm lucros e arrecadação em alta, enquanto o produtor sofre com dívidas. “Quando vamos todos ganhar dinheiro?”, questionou o dirigente, relatando que um trator produzido no município de Canoas chega a custar 60% mais quando vendido no Brasil, e não no outro lado da fronteira gaúcha. Outro ponto levantado por ele é que alguns defensivos utilizados no Paraguai, por exemplo, não podem ser importados pelos produtores daqui, enquanto o produto final deles entra livremente, pressionando as cotações.
Representante do movimento Te Mexe, Arrozeiro, Juarez Petry afirmou que o grupo teve de ser reativado em janeiro, diante da situação de calamidade entre os produtores de arroz de Tapes e região. Ele anunciou que serão feitas reuniões entre os agricultores e credores em cada município, de forma a renegociar vencimentos, mas que deve haver também esforço político para reduzir o endividamento no campo.

Governo responde
A primeira autoridade a responder as cobranças foi Neri Geller, do Mapa, que garantiu a alocação de R$ 100 milhões para os leilões de PEP e Pepro nos próximos dias, o que poderia escoar até 1,3 milhão de toneladas. A seguir, disse que a pasta está “organizada e preparada” para a AGF, sem detalhar quando a medida será aplicada.
Depois, reconheceu que não estão sendo atacados, com isso, os reais problemas da lavoura e prometeu trabalhar junto ao Conselho Monetário Nacional (CMN) pelo adiamento, até 2019, das operações dos arrozeiros em crédito oficial - ainda que mais de 70% da lavoura tenha sido montada a partir de fontes alternativas em 2017/2018.
Outro ponto abordado foi o preço mínimo, que serve de balizador para medidas de apoio à comercialização e a mecanismos de financiamento. Pela manhã, numa das salas da Estação Experimental do Irga, o secretário ouviu de produtores que eles precisavam vender o saco de arroz a R$ 45 apenas para empatar com o custo total da lavoura. Farsul, Fetag-RS, Federarroz, governo do Estado e o movimento Te Mexe, Arrozeiro estiveram presentes. “Tragam os custos, vamos abri-los. Se o governo federal estiver errado, vamos reconhecer”, disse Geller.
Já o governador José Ivo Sartori prometeu discutir internamente a redução do ICMS para operações interestaduais de arroz em casca, mas enfatizou a “penúria” dos cofres públicos e lembrou, nas entrelinhas, que o imposto caiu de 7,7% para 7% nas operações ao Sul e Sudeste e de 4,4% para 4% às demais regiões em janeiro do ano passado. “Vamos ver se é possível fazer ainda melhor na área”. A seguir, defendeu novas regras para o Mercosul, que também foi o foco do discurso do secretário estadual da Agricultura, Pecuária e Irrigação, Ernani Polo: “Não podemos aceitar que alguns setores paguem essa conta”.

Tecnologia
Milhares de produtores estiveram presentes nas vitrines tecnológicas e nas atrações em máquinas, equipamentos, debates e palestras técnicas e sobre mercado durante a 28ª edição da Abertura da Colheita do Arroz, promovida pela Federarroz, com apoio do Irga. A presença “maciça” de produtores foi destacada pelo presidente do Instituto, Guinter Frantz. “A tecnologia também serve para o produtor buscar renda”, disse ele.
Nas vitrines, ganhou destaque o pré-lançamento da cultivar Irga 431 CL, apresentada como uma opção no controle do arroz vermelho. O material é de ciclo médio, apresenta excelente qualidade de grãos e resiste às principais doenças, como a brusone, o que favorece uma menor aplicação de defensivos agrícolas. Também leva vantagem contra a variedade 424 RI no que se refere ao aspecto visual de grãos, pois registra baixo índice de centro-branco. A nova cultivar deve estar disponível a produtores de sementes na safra 2018/2019 e para comercialização no ciclo seguinte.

Safra
As primeiras lavouras colhidas com o cereal, amostra de 1% do total em área, principalmente no oeste do Estado, registraram em torno de 7,5 mil quilos por hectare, de acordo com a Emater/RS. “O percentual colhido poderia ser maior não fosse o atraso, devido a eventos climáticos, à época da semeadura”, mostra o documento. A etapa, nos últimos anos, esteve em 5% no período. O preço continuava abaixo do preço mínimo ao final de fevereiro, com a saca de 50 quilos sendo comercializada a pouco mais de R$ 35.
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