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Nº 420 - ANO 32 - SETEMBRO DE 2018
 
Vacas, passarinhos e meio ambiente - Blau Souza*
 
O Bioma Pampa tem de ser visto como um todo, na sua natural aptidão para a criação de gado e como sede de fauna e flora muito ricas. Sua preservação depende muito mais da conservação das pastagens nativas ou melhoradas pelos proprietários das terras do que de iniciativas governamentais restritas e restritivas se analisadas áreas cercadas e em desacordo com a vontade dos produtores rurais. Poucos entenderam tão bem o pampa quanto o Fernando Adauto, que buscou na Alianza Del Pastizal, reconhecimento e apoio internacionais. A aceitação e o crescimento da Alianza foi entendido e prestigiado pela Bird Life e suas filiadas no Brasil, na Argentina, no Uruguai e no Paraguai, países que têm pampa.
Os tempos iniciais da República no Brasil não foram fáceis e no Rio Grande do Sul levaram a governos discricionários que, apesar de oposição ilustre e das revoluções, ensejaram desenvolvimento social e econômico admirável e que resultou na relativa gauchização do Brasil moderno a partir da Revolução de Trinta e de Getúlio Vargas. Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros buscavam um Estado moderno, com embasamento científico, planejado e com tratamento estatístico de todos os fenômenos. Isso, aliado a princípios administrativos de probidade e de respeito pelo dinheiro público fez história... Hoje, em tempos de democracia e de penúria de recursos públicos, são elogiáveis os esforços do governador no sentido de cortar despesas, mas minhas pernas tremem quando é anunciado o desaparecimento da Fundação de Economia e Estatística, e, sobretudo, da Fundação Zoobotânica, charmosa e ativa para orgulho de todos os gaúchos. Recuso-me a acreditar que análises econômicas, Jardim Botânico, Parque Zoológico, Museu de Ciências Naturais, todo um patrimônio de cientistas e pesquisadores, bem como um acervo de publicações em pesquisa e ensino possam ser empurrados para um possível interesse do setor privado. O empobrecimento do Estado será evidente e incompreensível se considerados o pequeno custo que representa a FEE e os múltiplos recursos gerados e arrecadados pela Fundação Zoobotânica para o Estado. As crises abatem, mas não podem impedir o governo de pensar grande...
Aparentemente, estou a misturar assuntos sem ligação entre eles, mas ela existe e tem de ser encarada no Brasil e no Estado que vivemos. Para quem acredita na livre iniciativa, mas deseja um Estado eficiente e que não se abstenha de agir nas tarefas em que é insubstituível, os assuntos não podem ser mais pertinentes. O pampa e sua história permeada e ditada pela presença do gado exigem e merecem entendimento e políticas adequadas. Um desenvolvimento econômico sustentável está sendo buscado por produtores cada vez mais conscientizados da sua importância na produção de alimentos e na preservação do rico ambiente em que vivem; sabem que poucos lugares no mundo se prestam tanto à exploração agropecuária consciente, racional, inteligente. Ao reunir proprietários rurais que conservem pelo menos 50% de seus campos com pastagem nativa, a Alianza Del Pastizal deve buscar uma convivência pacífica entre proprietários rurais e preservacionistas. A excelência do meio ambiente, tão bem representada por bandos de pássaros, depende muito mais de boas práticas em todo o pampa do que de áreas cercadas, condenadas ao desuso, dentro de propriedades produtivas. Produzir carne num paraíso verde, com animais sadios, livres, alimentados com bom pasto e bebendo água de sanga vale todos os esforços. Progressivas conquistas na produção de alimentos ganharão muito se houver empreendedores rurais e preservacionistas, modernos, falando a mesma linguagem.
E para finalizar, fica um simoniano, respeitoso, mas desconfiado grito de “Laus Sus Cris” para quem aconselhe uma utilização mais proveitosa de meus campos pampianos, cobertos de pastos nativos e melhorados.

*Médico e escritor
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