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Nº 422 - ANO 32 - NOVEMBRO DE 2018
 
Ano começa estável para o leite, mas longe de agradar o produtor
 
O mês de fevereiro pode marcar uma retomada, ainda que lenta, no mercado do leite gaúcho, de acordo com os números mais recentes do Conseleite/RS, publicados no último dia 20. O valor de referência projetado é de R$ 0,9493 pelo litro do produto, quase 2% acima do consolidado em janeiro (R$ 0,9309).
Além disso, o próprio resultado final de janeiro ficou cerca de três centavos acima do esperado pelo grupo. Com isso, acabou superando inclusive o índice corrigido de dezembro (R$ 0,9234) - lembrando que foram aplicados novos parâmetros de cálculo em 2018, corrigindo uma defasagem de mais de 10% nos custos de produção nos tambos e na indústria e melhorando, em teoria, o valor pago ao produtor rural.
Para o presidente da Comissão do Leite da Farsul, Jorge Rodrigues, o resultado confirma uma tendência de estabilização do mercado, mas ressalta ser este apenas um início de recuperação. “Os preços ainda estão muito deprimidos diante das necessidades de margens”, compara.
A leve recuperação de fevereiro, se confirmada, está longe de cobrir a desvalorização constante de 2017, o pior dos últimos 12 anos para o setor lácteo, conforme pesquisa da Universidade de Passo Fundo (UPF). O mais recente valor base está, por exemplo, 6,4% abaixo de fevereiro do ano passado e 9,7% menor que o mês de pico, abril.
Também houve relatos do abandono da atividade por alguns produtores neste início de ano ainda, enquanto outros têm recorrido ao abate de vacas e a menores investimento na produção, afirma boletim do leite do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP. “A queda drástica dos preços no segundo semestre prejudicou as margens dos produtores e, para uma parcela mais vulnerável, estimulou o abate de vacas, a mudança de padrão genético do rebanho e a cria de bezerros para uma gradual transição para o mercado de corte”, pontua.
Produtores mais capitalizados também teriam sentido os impactos do recuo no consumo e o excesso de oferta, ainda segundo o Cepea. Porém, muitos destes conseguiram lidar com o revés de outra forma: segurando investimentos na produção, como reforma das pastagens, o que pode resultar em perdas de volume e qualidade neste ano.
De qualquer maneira, foi a primeira vez em 10 meses que as cotações subiram sem a influência decisiva de um fator externo. Os outros dois resultados positivos nesse meio tempo - novembro e janeiro - foram atribuídos principalmente à interrupção das importações de leite em pó uruguaio e aos novos parâmetros de cálculo do índice do Conseleite/RS, respectivamente. Dessa vez, o valor está mais relacionado ao período de entressafra da produção de leite, conforme destaca o presidente do Conselho Estadual do Leite e secretário geral da Fetag-RS, Pedrinho Signori. A retomada das aulas no Estado também tradicionalmente impulsiona o consumo.
Os próximos dias serão importantes para avaliar que ano, de fato, o produtor deve esperar em 2018. O pesquisador da UPF Eduardo Finamore, por exemplo, confia em melhor cenário à cadeia produtiva, mas com avanços tímidos. “A expectativa é que os preços do UHT subam no primeiro semestre, mas ainda fiquem um pouco abaixo do parâmetro do ano passado”, analisa.
Já o Cepea sugere cautela ao definir investimentos, mas destaca que “operar com o menor nível de investimento possível só aumenta a vulnerabilidade frente às pressões de mercado, eventos climáticos extremos e depreciação dos fatores produtivos”. A melhor decisão ao produtor estaria, portanto, em maximizar a eficiência produtiva, detalhando onde, como e o motivo de investir, enquanto observa uma possível recuperação da atividade econômica brasileira. “A demanda por lácteos, especialmente iogurtes e queijos (com exceção do leite longa-vida), é elástica à renda - ou seja, o consumo aumenta à medida que o poder de compra se eleva”.
Representante das indústrias no Conselho, o presidente do Sindilat, Alexandre Guerra, defende a necessidade de ganho de escala e competitividade nos laticínios, movimento que deve estar alinhado à produção primária. Também afirma que é possível trabalhar na produção e prospecção de vendas de itens de maior valor agregado, garantindo melhor remuneração pelo leite. “Mercado existe: há 35 países para os quais exportamos”, disse.
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