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Nº 418 - ANO 32 - JULHO DE 2018
 
Mapa e Farsul debatem plano de desenvolvimento
 
Sistema Farsul e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) deram um passo importante para a elaboração do plano de desenvolvimento para as culturas do trigo, arroz e leite no Estado. A ideia foi proposta pelo presidente do Sistema Farsul, Gedeão Pereira, ao ministro do Mapa, Blairo Maggi, durante a mais recente Expodireto Cotrijal. Em 9 de abril, o secretário executivo da pasta federal, Eumar Novacki, ministro em exercício naquele momento, veio até a sede da Federação, em Porto Alegre, para conversar com dirigentes e assessores da entidade e ouvir os pleitos do setor.
A expectativa é criar, com participação do governo federal, estudo aprofundado sobre a realidade das três culturas no Rio Grande do Sul, a culminar em um plano de desenvolvimento semelhante ao aplicado para a fruticultura no Nordeste brasileiro. “Precisamos de políticas agrícolas de caráter duradouro, para que as cadeias produtivas não fiquem nesse vaivém, alternando bons momentos e crises, algo nefasto para o crescimento”, afirmou Gedeão, após a reunião.
Novacki concordou com a proposta de estruturação de governança do setor “desde as boas práticas de produção até a gôndola do supermercado”, em suas palavras. “Se não trabalharmos com planejamento de médio e longo prazo, estaremos todos os anos apagando incêndios”, disse. Depois, pediu ao setores de lácteos, arroz e trigo que levem para a equipe técnica do Mapa, dentro de 30 dias, propostas mais avançadas, enquanto o próprio Ministério observa o que é possível ser feito de imediato e o que necessita de organização e mobilização específicas.
Um exemplo são as incongruências do Mercosul, evidenciadas pelo estudo da assessoria econômica do Sistema Farsul que comparou o preço de insumos e maquinário no Brasil, na Argentina e no Uruguai. “O produtor vizinho tem acesso a insumos muito mais baratos que nós. Vamos olhar e ver se trata de questões burocráticas. Se assim for, vamos simplificar e resolver esse assunto”, prometeu Novacki. Outro ponto levantado foi o contrassenso na hora de importar produtos agrícolas produzidos com fertilizantes e defensivos agrícolas proibidos no território brasileiro. “Defendemos a lealdade no comércio internacional”, disse. O secretário reconheceu ainda que apenas com a melhora da competitividade e abertura econômica é possível avançar no mercado internacional. “Acreditamos que o mercado é uma via de mão dupla. Quem quer vender mais, como é o caso do Brasil, que busca chegar a 10% da participação no agronegócio mundial (7% hoje), tem de estar aberto à concorrência dos países”.
Novacki prometeu ainda revisar os critérios do preço mínimo de diversas culturas, ponto questionado há bastante tempo, e reforçou que é preciso pensar muito bem a questão do marketing, como no arroz. “Se tivéssemos mantido o consumo per capita de 20 anos atrás, o mercado absorveria todo o excedente de Argentina e Paraguai hoje. Talvez falte mostrar melhor a importância do produto na alimentação diária”. A reunião se estendeu ao longo do dia e teve a participação, além dos diretores da Farsul, de integrantes da equipe técnica do Mapa, parlamentares estaduais e federais, representantes da Fetag, Federarroz e Sindilat, entre outros.

Gasta mal
De início, o economista-chefe do Sistema Farsul, Antônio da Luz apresentou sugestões visando a melhorar as atuais políticas públicas do setor. Conforme o economista, além de ter poucos recursos disponíveis, o governo gasta mal. “A maior parte são para folha de pagamento e custos administrativos e tributários em bancos oficiais. Precisamos usar melhor os recursos em políticas públicas que realmente façam a diferença na vida do produtor”, indica. Depois, vieram os pleitos específicos para cada cultura.

Trigo
De acordo com Gedeão Pereira, a maior reclamação está na falta de políticas antecipadas, como a garantia de leilões de apoio ao escoamento da cultura assim que as cotações estiverem abaixo do mínimo. “Temos de proteger essa cultura que é extremamente importante nos estados da Região Sul pela dobradinha que faz com a lavoura de soja. Sendo uma cultura absolutamente complementar e necessária, não podemos ficar sem encontrar caminhos de preço para dar sustentabilidade”, disse.
O presidente da Comissão do Trigo da Farsul, Hamilton Jardim, mostrou ainda que o Plano Safra cobre apenas entre 55% e 60% do custo de produção, o que colabora na redução de área plantada nos últimos anos. “Temos problemas de custos de produção, de preço mínimo, de seguro agrícola. Além disso, os produtores ainda não receberam o Pepro da safra anterior”, aponta o dirigente. Vale lembrar que a produção representa somente cerca de 70% do consumo do país, e mesmo assim não há remuneração adequada no campo.

Arroz
O presidente do Sistema Farsul alertou para o endividamento elevado entre os arrozeiros, que só pode ser revertido com melhor cenário para a produção (leia-se custos menores e melhor concorrência) e prorrogações de vencimentos. “Há grande necessidade também de viabilizar mercados internacionais, a exemplo de México, Nigéria e China, ávidos pela importação do arroz que ainda apresentam algumas barreiras fitossanitárias que nos trazem dificuldade”, defendeu. Já o presidente da Comissão do Arroz da Farsul, Francisco Schardong, deu enfoque ao fato de que aproximadamente 70% dos produtores estão fora do crédito oficial atualmente. “O Plano Safra para o arroz é uma miragem, não se consegue chegar nele”, reclama.

Leite
Novamente os assuntos dominantes foram os custos menores em países vizinhos - por conta da burocracia na importação de insumos e a elevada carga tributária brasileira, o que torna a concorrência difícil no mercado interno - e a necessidade de viabilizar exportação. “Temos de exercer de fato o Mercosul, tendo a mesma liberdade na compra de insumos. E o Brasil começa a entrar no mercado externo, o que levanta a necessidade de se ter caminhos e incentivos”, disse Gedeão.
Farsul, Fetag e Sindilat ainda entregaram documento solicitando a escoamento de 50 mil toneladas de leite em pó ou o equivalente em UHT. O mecanismo utilizado seria por meio de compras governamentais e pela utilização do Prêmio de Escoamento da Produção (PEP) para derivados lácteos (leite em pó, UHT e queijos).
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