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Nº 416 - ANO 32 - MAIO DE 2018
 
A amigos de fé pueril - Blau Souza*
 
O ano de 2017 era um desafio em termos de festejar centenários. Do ponto de vista pessoal, o centro foi o da formatura de meu pai na Faculdade de Medicina de Porto Alegre. E a festa perdera brilho pelas mortes recentes de Oswaldo Cruz, vulto maior da medicina brasileira, e de Luiz Luce, o mais alegre dos formandos, e que fora vitimado pela febre tifoide, endêmica na capital gaúcha de 1917. Ambos mereceram homenagem póstuma da turma e, à Crispim, abalava ainda a morte do pai, meses antes de ver o filho doutor. O mundo vivia a Primeira Guerra Mundial e o Brasil declarara guerra à Alemanha. A Rússia, em plena conflagração, assistira a vitória da Revolução Comunista. As consequências da guerra eram bem evidentes e, às vezes, lamentáveis para presumidos espiões buscados entre os alemães e seus descendentes na cidade de Porto Alegre e no Estado, eles que eram tão importantes na indústria, no comércio, nos esportes e em todas as atividades.
Cedo, em 2017 resolvi participar das atividades patrocinadas pelo IHGRGS e outras entidades em homenagem ao centenário da Revolução Bolchevique. Importância histórica não faltava e participei sem dispensa do espírito crítico, nem das concepções de liberal assumido. A mesma decisão, em sentido contrário, foi tomada por inúmeros e queridos amigos, que não conseguiam esconder seu entusiasmo pelo comunismo, ainda que o mesmo não tivesse dado certo em nenhum lugar do mundo. Valeu o encontro, e como! Emoção e nostalgia valem por demais e reabastecem nossas vidas e amizades. Mas certa decepção me invadia, por exemplo, ao verificar que os amigos se ocupavam com “texto de apoio ao heroico povo da Venezuela na sua luta contra o imperialismo”. Diante da fé pueril dos amigos, mal articulava palavras soltas de chavão: “Me caíram os butiás do bolso...”
Mas a importância histórica da Revolução Comunista é tanta, que alterei viagem previamente marcada à Escandinávia, para acrescentar visita à Rússia por ocasião do centenário dela. Não há nação que resista a comparações com os países nórdicos quando se analisa qualidade de vida e desenvolvimento social. Basta que se olhe para as obras de edifícios em construção para que se sintam as diferenças. De um lado, trabalhadores superprotegidos atuam em andaimes e plataformas que parecem estruturas definitivas e com um isolamento invulgar; enquanto, à medida que se penetra na Rússia, vão surgindo obras mal isoladas, andaimes precários, em que se equilibram trabalhadores mal protegidos e com uniformes inadequados. Mas trens rápidos e navios vão sendo tragados por um país enorme e desafiador. São Petersburgo e Moscou polarizam séculos de história e de servidão mescladas com arte e literatura mostradas a filas gigantescas de turistas de todos os lugares. Tradição e religiosidade estão muito presentes nas muitas igrejas, onde os fiéis apalpam e beijam ícones. Se não há hostilidade ao comunismo, há clima de afastamento e de alívio pelo seu desaparecimento, em acordo com os dezessete por cento de apoio conseguidos pelos comunistas em repetidas eleições. Putin parece amado pelo povo e há clima de esperança e de patriotismo evidentes.
Enquanto minha mulher e casal amigo visitavam shopping defronte à Praça Vermelha, entrei na fila para visitar o mausoléu de Lenine e que também acolhe os despojos de astronautas pioneiros. A fila não era muito grande, o clima de curiosidade e, certamente, com o menor número de chineses que encontrei em todos os lugares que visitei na Rússia. A uns vinte metros da entrada, bela policial encerrou a visita e dispersou os turistas. Não consegui visitar Lenine, mas estou convencido de que em nenhum dos companheiros de fila havia amor e entusiasmo por ele como o demonstrado pelos amigos comunistas de Porto Alegre.

*Médico e escritor
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