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Nº 418 - ANO 32 - JULHO DE 2018
 
Editorial
 
A Farsul manifestou-se a respeito da paralisação dos caminhoneiros no final de maio, que reivindicou a redução da carga tributária sobre o combustível, mas que acabou gerando uma série de transtornos à população brasileira, incluindo o meio rural. Por meio de nota oficial, a entidade disse entender que a pauta é legítima, pois concorda que a diminuição da pesada carga tributária que afeta toda a sociedade brasileira deve ser tratada como prioridade. No entanto, criticou a manutenção e a forma dos protestos após o governo atender boa parte das reivindicações.
Adentrando o mês de junho, diante do final dos bloqueios nas rodovias, é necessário fazer um balanço dos resultados da greve. Para colocar fim ao impasse, o presidente Michel Temer concordou em zerar a cobrança de impostos federais sobre o óleo diesel, o que pelas contas do Planalto reduziria em R$ 0,46 o preço do diesel vendido às distribuidoras, além do fim da revisão diária de preço. Essas foram as principais medidas anunciadas, aparentemente benéficas a diversos setores, como o agronegócio, considerando que o diesel é uma variável importante do custo de produção da lavoura brasileira. Outros pleitos foram atendidos, como o início da elaboração de um valor tabelado para o frete, certo que em valores superiores aos atuais, e a possível isenção de cobrança nos pedágios sobre eixo vazio.
Contudo, uma análise justa e séria precisa considerar os efeitos que os dias de paralisação também trouxeram aos brasileiros, em especial ao campo e às agroindústrias. A estimativa da CNA é que nove dias de bloqueio nas estradas pelos caminhoneiros resultaram em perdas de R$ 6,6 bilhões aos produtores, e estes precisarão de seis meses a um ano para reestruturar os negócios. No Rio Grande do Sul, entidades não tardaram a projetar prejuízos em diversos setores. O Conseleite falou em perdas de 8 milhões de litros de leite por dia. Para a indústria de aves e de suínos, perdas diárias de R$ 34 milhões somente no Estado, segundo o Fundesa. O setor de hortifrutigranjeiros foi ainda um dos mais afetados, pelo caráter altamente perecível dos produtos, e as dificuldades de escoamento trouxeram transtornos graves para o comércio de grãos e de carne bovina, entre outros.
São valores a montante e que, apesar de expressivos, podem não dar conta de expressar o caótico cenário vivido ao longo de quase duas semanas com a violação do direito constitucional de ir e vir nas rodovias federais. A imagem é certamente mais chocante quando olhamos para o individual, para o produtor de alface que não tem a quem vender o produto que irá apodrecer antes de ser consumido; para o produtor de leite que despeja litros e litros no chão e lamenta o desperdício de alimento, dinheiro e trabalho; para o suinocultor que se vê obrigado a decidir quais animais deixa morrer de fome no contingenciamento de ração. Foram cenas que de fato estiveram nos noticiários. Gente que não tem culpa alguma da situação, que é decidida lá fora da porteira, sem direito a voto.
Sem contar que fatalmente o “pacote de bondades” do governo federal trará impactos importantes em termos de inflação e Produto Interno Bruto, com as projeções passando de 3,50% para 3,60% (IPCA), e de 2,50% para 2,37% (PIB), de acordo com o último relatório Focus do Banco Central. A consequência é custo de vida mais caro para a população, menor arrecadação para federação, estados e municípios, aumento do déficit público etc. Não esqueçamos também de cobrar a promessa do governo de “cortar na carne” para compensar a redução no diesel, estimada em R$ 9,5 bilhões, algo no mínimo a se desconfiar. Por 46 centavos no litro, durante 60 dias, resta-nos uma conta enorme para pagar.
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