Jornal em Formato HTML
 
Nº 421 - ANO 32 - OUTUBRO DE 2018
 
Viagem e livro - Blau Souza*
 


Será uma boa ideia usar viagem como gancho para falar de livro? Certamente, se ambos assegurarem momentos felizes a quem os enfrente. De viagem ao Peru e Colômbia ficaram muitos registros, iniciando pela satisfação de ter passado quase incólume por Machu Picchu e Cuzco, de ter vencido a altitude, sem recorrer a tratamentos que fossem além do mascar folhas de coca, ou usá-las como chás e balas. Iniciar rota pela costa do Pacífico em Lima e chegar à costa tropical e atlântica de Cartagena é desafiante. E sempre estimulado por culinárias consagradas, ricas em pescado, produtos locais e acompanhados de pisco ou ótimas cervejas. Conhecer o artesanato e a cultura inca em diferentes altitudes e no Vale Sagrado satisfaz a exigentes turistas e sem gastar muito. Centenas de variedades de batata e de milho, lãs de lhama, alpaca, vicunha ou guanaco, coloridas, ou não, através da cochonilha e de outros produtos naturais, fazem a alegria de feirantes simpáticos e cheios de paciência. Nem falo das metrópoles Lima e Bogotá, cada uma com mais de oito milhões de habitantes, ou das culturas pré-incaicas que enriquecem museus e sítios arqueológicos importantes.
Mas tudo pode ser melhorado se houver uma boa livraria. Isso aconteceu em Bogotá quando se anunciava o último livro de Mario Vargas Llosa. Vejam, o livro do peruano fora impresso na Colômbia, importante centro editorial de língua hispânica. Já a capa me agradou e a contracapa mais ainda, pois nela Vargas Llosa apresenta o livro como uma autobiografia intelectual. Ao contrário do El pez em el água, em que figuram as vivências do autor, no livro recém comprado o protagonismo é das leituras que moldaram a sua maneira de pensar nos últimos 50 anos. Qual o nome de minha paixão à primeira vista? La llamada de La tribu, editado pela Alfaguara (Penguin Random House Grupo Editorial). Nele, há textos sobre os filósofos que o fizeram passar da identificação entusiasmada com a Revolução Cubana e com Jean-Paul Sartre até uma posição crítica às antigas ligações e um protagonismo político liberal que o fez candidato à presidência do Peru. Longe de mim buscar uma intimidade inexistente com o autor, mas o livro me impactou pela identificação com ele e com uma juventude sul-americana descontente com o subdesenvolvimento e a desigualdade social. Lembrei dos tempos de aprender algo em livros de iniciação à filosofia, que dos festejados gregos passavam a Karl Marx sem muitos preâmbulos. Eram tempos de acreditar que o mundo evoluiria inexoravelmente para o socialismo. Eram tempos de aceitar até a perda da liberdade em função de um mundo utópico sem explorados e exploradores.
Mas deixemos, que o próprio Vargas Llosa apresente os pensadores que o ajudaram a mudar e cujas trajetórias ele conta como só ele sabe: Adam Smith, José Ortega y Gasset, Friedrich August von Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Jean-François Revel. Vejam que apenas Adam Smith é anterior a Marx, os demais são contemporâneos ou posteriores a ele, e tratados com certo desdém por professores universitários e intelectuais de nossa juventude. Eram pouco conhecidos e menos divulgados que os simpatizantes da utopia comunista. Os mestres de Vargas Llosa, na sua maioria eram judeus, viveram no exílio e foram acolhidos por universidades, sobretudo na Inglaterra. Eram homens de vida simples e que viveram períodos difíceis, tais como os dos austríacos Von Ayek e Karl Popper na sua convivência com os estragos produzidos pelo também austríaco Adolph Hitler.
Sem considerar nacionalidades, todos os escolhidos de Vargas Llosa privilegiaram o indivíduo frente à tribo, nação, classe ou partido. Todos eles também foram defensores intransigentes da liberdade de expressão como valor fundamental para o exercício da democracia. La llamada de La tribu não é um livro de fácil leitura, mas coopera para um melhor entendimento do mundo em que vivemos. Quanto a mim, pretendo relê-lo na minha poltrona, bem longe do avião.

*Médico e escritor
voltar