Jornal em Formato HTML
 
Nº 421 - ANO 32 - OUTUBRO DE 2018
 
Sob três pontos de vista
 
DIRIGENTE
Gilmar Tietböhl
Superintendente do Senar-RS

Considerando as duas passagens pelo Senar-RS, Gilmar Tietböhl soma treze anos de dedicação à entidade. Ocupou a superintendência entre 2000 e 2006, retornando em 2011. Nesse meio tempo fora, foi diretor-geral e depois secretário da Agricultura do Estado, durante a gestão da ex-governadora Yeda Crusius. Fala com orgulho da trajetória de duas décadas e meia do Senar-RS, ao mesmo tempo que projeta novos horizontes.

Sul Rural - Qual a missão do Senar-RS?
Gilmar Tietböhl - O Senar-RS opera em duas vertentes distintas. Uma delas, a Formação Profissional Rural, objetiva levar aos trabalhadores e produtores rurais conhecimentos técnicos, práticas produtivas, conceitos e ferramentas de gestão, buscando dar-lhes condições de produzir com mais qualidade, com respeito ao meio ambiente, com maior produtividade e, por consequência, com melhor renda. A outra é a Promoção Social, que abrange atividades relacionadas a temas como saúde, cultura, esportes, convivência social, entre outras, tendo como objetivo melhorar a qualidade de vida das pessoas que trabalham no meio rural.

SR - Como foram esses 25 anos?
GT - Foram de permanente transformação. Inicialmente, nossos cursos tinham curta duração e não chegavam a transmitir conhecimentos mais amplos, de forma a atingir uma competência completa em cada atividade laboral no campo. Atendíamos, com isso, apenas aspectos específicos da produção. Embora altamente benéficos aos produtores e trabalhadores rurais, esses conhecimentos isolados atingiam seus objetivos, mas, no geral, não chegavam a completar a competência necessária. Aos poucos, fomos agrupando esses conhecimentos em programas com cargas horárias maiores, o que permitiu maior eficácia à nossa ação educacional. Hoje, tanto os diversos programas de Formação Profissional Rural, quanto os cursos isolados, constituem ferramental expressivo à disposição do meio rural e conseguem transferir tecnologias e conhecimentos com melhores resultados.

SR - Qual o maior desafio nesse trabalho?
GT - São muitos. Diferentemente dos núcleos urbanos, providos de prédios, meios de transporte etc., nosso trabalho tem especificidades próprias do meio onde atuamos. No geral, nossa sala de aula é a propriedade rural, as distâncias que os alunos têm de percorrer para concluir os cursos às vezes são grandes, e os horários de trabalho no campo algumas vezes nos condicionam a adaptações. Por exemplo: para cursos de fruticultura, precisamos de um pomar; para cursos de mecanização agrícola, precisamos de máquinas e local para operá-las; para curso de pecuária, precisamos dos animais e também de local adequado. Outro grande desafio é a atualização dos nossos cursos, de forma a que não corramos o risco de levarmos conhecimentos defasados aos nossos alunos. Além disso, as inovações tecnológicas são permanentes e nem sempre conseguimos acompanhar a velocidade desse processo. Desde meados do primeiro semestre de 2018, por determinação do nosso presidente [Gedeão Pereira], estamos, entre outras ações estratégicas, revendo todo o nosso portfólio de cursos e programas. Ou seja, cuidando da atualização dos conhecimentos que repassamos ao meio rural.

SR - Para onde vai o Senar-RS?
GT - Hoje em dia, em termos tecnológicos, quando se fala em futuro, podemos estar falando das próximas 24 horas ou da última semana. Ou seja, a tecnologia não para de avançar. Seguramente, foi a produção rural o segmento da economia que mais avançou nas duas últimas décadas, especialmente na última. Por isso, estamos dando especial atenção às inovações tecnológicas, procurando aproximação com as universidades e, em especial, com as chamadas startups, que são empresas dedicadas a essas inovações, geralmente formadas por pessoas jovens e empreendedoras. Esses movimentos nos permitirão levar ao meio rural instrumentos capazes de melhorar a produção em todos os seus aspectos. Assim, o que projetamos para o futuro é uma permanente e mais veloz transformação da nossa ação educadora. Um desafio e tanto, que vamos encarar com disposição.

PRODUTOR
Angélica Abreu
Pecuarista da fazenda Tambo do Lageado, de Alegrete

Natural de Alegrete, Angélica Abreu, 26 anos, é uma aluna fiel dos cursos do Senar-RS. Aliás, ela e toda a família, que gerencia junta a fazenda Tambo do Lageado, com foco na produção de leite. Entre Angélica, o irmão Gilberto, e os pais Nelson e Almancina, são mais de 130 certificados guardados em casa. Mas a maior conquista está fora dela: o rebanho de qualidade, que traz mais renda e confiança para continuar investindo.

Sul Rural - Como era a propriedade no início?
Angélica Abreu - Meus pais, há 17 anos, mudaram da cidade para uma propriedade do interior. A gente começou com três vacas emprestadas, depois passamos para cinco… Tínhamos uma produção total de 25 litros/dia. Chegava no período de entressafra, que não tem pastagens de inverno ou de verão, diminuía para 15 litros. Era essa a nossa renda. Hoje, estamos com 35 vacas em ordenha, com perspectiva de chegar no pico do inverno, que é a nossa safra, com 50. Temos uma produção média de leite por vaca entre 25 e 27 litros, enquanto antigamente era de 3 a 5. Foi uma mudança significativa, pela qualidade do gado, da comida que ele ingere, da terneira quando se torna vaca.

SR - Como chegou ao Senar-RS?
AA - Terminei o ensino médio e sonhava em fazer medicina veterinária, mas meus pais não tinham condições de pagar. Não tinha no município, teria que cursar fora, pagando aluguel. Pouco tempo antes, um técnico, que era extensionista da Emater, falou para nós de uma instituição que dava curso e era de graça. Quando meus pais começaram, a gente [ela e o irmão] não tinha com quem ficar em casa e acabava indo junto. Ao 16, que é a idade mínima para vários cursos, passei a me especializar de verdade e ter autonomia para fazer as coisas do jeito que eu queria. Então fui me tornando profissional, mesmo sem curso superior.

SR - No que o Senar-RS ajudou?
AA - No início, tínhamos vários problemas que todo mundo que está começando na atividade passa, como mastite em vaca. A gente não sabia como criar terneira, aplicar remédio, coisas bem básicas, porque a minha família é realmente oriunda da cidade. A minha virada, particularmente falando, foi aos 18 anos, com um curso de inseminação artificial. A partir dele, consegui melhorar geneticamente o nosso gado e terceirizar esse serviço na comunidade. Ou seja, melhorou a nossa qualidade e a dos vizinhos. Foi ali também que passei a ter um contato mais direto com as pessoas, conhecer novas realidades, ter uma troca real de experiências.

SR - O trabalho chamou a atenção na volta?
AA - Quando apareceram os primeiros resultados, [a informação] correu muito pelo boca a boca. Umas quantas propriedades que tinham duas, três vaquinhas mansas para tirar leite do consumo, despertaram para a questão. Eu cobrava o deslocamento, a dose e uma taxinha de serviço, e acabava muito mais em conta do que chamar alguém da cidade. A verdade é que grande parte da comunidade, dos produtores pequenos, não tinha sequer noção de como poderia melhorar suas vacas. O mais próximo disso que faziam era levar num vizinho que cobrava por uma cobertura de touro comum. Essa é a importância de se ter uma instituição como o Senar-RS, que valoriza a tecnologia e dá um curso gratuito sobre coisas que as pessoas, muitas vezes, não conhecem ou não têm acesso. É toda uma mudança de pensamento, de cultura.

SR - Centro e trinta cursos… Pretende fazer mais?
AA - Sim, penso em fazer alguns mais específicos, como o de solda, nessa parte de manutenção de máquina. Quero fazer o de operador de trator, mais algum sobre criação de terneira... Fiquei sabendo que esse tem umas novidades interessantes. Não dá para parar muito no tempo, senão o negócio fica defasado. Estabiliza e não cresce.

SR - O que o Senar-RS representa para vocês?
AA - Qualidade de vida. Porque mudou muita coisa por aqui.

TÉCNICO
Diego Coimbra
Supervisor do Senar-RS na Região da Produção

Natural de Ijuí, o agrônomo Diego Coimbra, 52 anos, investia numa agropecuária especializada em hortaliças, reflorestamento e fruticultura, em 1996, quando resolveu habilitar-se como instrutor do Senar-RS. Na época, era uma entidade iniciante, de apenas três anos, e não tão conhecida assim dos gaúchos. Após dois anos de trabalho e quase 200 cursos ministrados, virou supervisor regional nas Missões, teve rápida passagem pelo Senar de Santa Catarina, e voltou ao Estado para coordenar a região da Produção, que engloba 16 sindicatos rurais e 83 municípios. Ao Sul Rural, falou sobre a importância desse trabalho junto ao produtor.
Sul Rural - O que era o Senar-RS quando entrou?
Diego Coimbra - Estava iniciando, então tinha uma estrutura bem pequena, pouquíssimas pessoas trabalhando. A maneira de trabalho também era bem diferente. Era tudo manual: recebia uma cartinha pelo correio indicando o local do curso. Estávamos desbravando o Rio Grande do Sul com uma série de atividades. E foi uma experiência fantástica. A gente acha que sabe alguma coisa quando termina a faculdade, depois vai a campo e recebe uma aula de vida da população rural, das comunidades. A academia e o dia a dia são duas escolas bem diferentes. Mas quando elas se complementam, é um ganho muito grande.

SR - Então quem trabalha no Senar-RS ensina, mas também aprende…
DC - Não sei se existe uma atividade tão prazerosa e de igual retorno profissional e cidadão como ser instrutor do Senar-RS. É impressionante. O instrutor sai do curso gratificado. Primeiro, por ensinar as pessoas, e segundo pelo que ele aprende, como o exercício da humildade, o reconhecimento de que tem muitas coisas a descobrir ainda, e até a segurança. No primeiro curso que fiz, levei uma pilha de livros. Depois, fui abandonando aquilo, não era mais necessário.

SR - Qual a melhor forma de falar com o produtor?
DC - São as conversas informais e simples, as rodas de chimarrão, os horários de intervalo, antes e no final da aula. Através de um diálogo simples, o produtor coloca para fora os seus problemas, suas dificuldades, se expõe um pouco mais, e ali tem um crescimento. Durante o curso, o público fica um pouco mais retraído, não gosta muito de falar de si. Preferem uma conversa mais reservada. É um momento muito rico.
SR - Que importância o Senar-RS tem para a população rural?
DC - O Senar-RS é uma ferramenta poderosa de transformação da vida das pessoas. E como toda ferramenta, precisa ser bem empregada, pelas pessoas certas e no momento certo. Agora que estamos na fase dos programas, esse potencial se multiplica. Porque se o curso tem potencial de transformação, imagina um programa que dura um ano! Ouvir relatos de famílias que mudaram de vida a partir do Senar-RS é emocionante. Esses dias, em Novo Barreiro, um rapaz me contou que fez um curso de eletricista, depois de motores elétricos, e que hoje presta serviço, vive disso. Que ali no interior tinham casas que pegavam fogo, pessoas chegavam a morrer com choque elétrico, e hoje não acontece mais. Isso é transformação e desenvolvimento. Quando o Senar-RS consegue esse tipo de coisa, é um momento de glória, de satisfação, de dever cumprido.
voltar