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Nº 420 - ANO 32 - SETEMBRO DE 2018
 
Plantio do trigo avança sob melhores perspectivas
 
A valorização do preço do saco do trigo pouco antes do início do plantio e a previsão de condições de normalidade de clima no inverno, com o enfraquecimento do fenômeno La Niña, fizeram muitos produtores mudarem de ideia quanto ao investimento na principal cultura de inverno no Estado. Se antes o desestímulo evidente resultava em projeções de queda de cerca de 20% na semeadura, agora fala-se até em manutenção de área.
Essa é a impressão do presidente da Comissão do Trigo da Farsul, Hamilton Jardim, ao final de junho, quando mais de 530 mil hectares de trigo foram plantados, pelos cálculos da Emater/RS. Alertando quanto à diferença entre a lavoura gaúcha de verão e inverno, que indica falha na rotação de culturas, o dirigente comemora a notícia: “Tudo que se incrementa [de área plantada] no inverno é positivo, porque se cultiva muito pouco em comparação com as principais culturas do verão. Mais investimento no trigo, com tecnologia, sem dúvidas, é salutar”, diz Jardim.
Para a Emater/RS, a previsão de área é de 668 mil hectares, e a de produtividade, 2.142 mil quilos por hectare. Se esses números forem confirmados, o Estado deve produzir 1,43 milhão de toneladas de trigo neste ano, 17% a mais do que em 2017. Além disso, informativo conjuntural aponta que, até o final do mês, era boa a perspectiva do estabelecimento das áreas, em função de umidade e condições climáticas favoráveis. “As lavouras implantadas apresentam boa emergência, com exceção da área localizada entre o Norte de Ijuí e Santo Augusto, onde as fortes chuvas ocasionaram erosão”, mostra o documento. Jardim também registra o fato, ainda que como exceção: “Infelizmente, houve muita chuva e processo de erosão nas regiões do Planalto Médio e Depressão Central. Mas o plantio transcorre normalmente na maioria dos locais, para repetir a área do ano passado”.
Sobre as cotações, o acompanhamento semanal da Emater/RS aponta valor médio de R$ 41,41 pelo saco de 60 quilos na virada do mês. Em relação ao ano passado, quando era comercializado a R$ 35,54, o produto valorizou 16,5%. A média histórica, que considera os cinco anos mais recentes, é de R$ 38,82, também abaixo (6,7%). Também há previsões de queda de estoques mundiais e menor concorrência com o Paraná, que recua em área: ficará em 1 milhão de hectares, com colheita estimada em 3,3 milhões de toneladas, segundo o Departamento de Economia Rural do estado sulista.
Já o enfraquecimento do fenômeno La Niña - caracterizado pela temperatura abaixo da média nas águas do Oceano Pacífico Equatorial, afetando o clima gaúcho e brasileiro -, foi observado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a partir de abril. Por sua vez, o fenômeno inverso, o El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do oceano, pode acontecer (se tanto) somente a partir do final da primavera até o início do verão. Com isso, no inverno, devem prevalecer “condições de normalidade próprias da estação”, mostrou relatório da instituição, abordado em nota do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).
Especificamente quanto ao Rio Grande do Sul, o prognóstico é de chuvas abaixo da média, com exceção do Extremo Sul, que deve apresentar precipitação ligeiramente acima do padrão. Da mesma forma, a maior frequência das frentes frias deve contribuir para variações maiores de temperaturas ao longo do trimestre, mas com médias de normal a acima da normal climatológica.

Segregação
A safra de trigo traz um aspecto marcante em 2018: o investimento na segregação do trigo, que começa na hora do plantio. Tentativa de valorizar o produto, mesmo em safras de difícil comercialização, ela consiste, neste momento, na separação entre as áreas com cultivares que geram produtos de aptidões diferentes. Posteriormente, no momento da colheita, o produtor deve ainda armazenar os grãos de maneira separada, para então alcançar sobrepreço no momento de comercialização do trigo com a indústria.
De acordo com Hamilton Jardim, da Farsul, a segregação é uma ação que vem crescendo no Estado desde 2016, quando a Câmara Setorial do Trigo do Estado publicou nota técnica separando 33 cultivares em cinco grupos: pão branqueador, pão 1, pão 2, doméstico e biscoitos. Desde então, o trabalho foi levado pela Federação, por sindicatos rurais, cooperativas e cerealistas aos mais diversos eventos e locais do Rio Grande do Sul. “O produtor está, aos poucos, aprendendo a segregar na hora da entrega e, principalmente, no momento do plantio, evitando colocar inúmeras variedades”, destaca o dirigente. “Não temos mais do que 20 hoje. Chegamos a ter mais de 80”.
Segundo Jardim, o foco atual do triticultor é a venda para uma indústria moageira que valoriza o trigo com qualidade para panificação, seja ele destinado para pão francês (o principal), seja para massas e biscoitos, entre outros nichos. Também pode ser observado um esforço crescente em investir numa produção que responda aos negócios locais. “Se não atender a indústria local, ela vai trazer de fora, e vai ser difícil competir naquela mais distante com essa logística que nos é colocada”, adverte.
A recomendação para essa e outras safras é, portanto, identificar as cultivares e suas aptidões pela nota técnica da Câmara Setorial, plantar poucas cultivares e, por ocasião da comercialização, receber separadamente. A mistura de lotes para venda seria aceitável, nessa perspectiva, somente caso o produtor não consiga fechar negócio até a entrada das safras de milho e soja, que ganham em preferência.
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