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Nº 422 - ANO 32 - NOVEMBRO DE 2018
 
Editorial
 
Faz algum tempo que o Sistema Farsul alerta sobre a crescente seletividade no crédito agrícola dentro do Plano Agrícola e Pecuário. A questão está altamente relacionada à crise econômica que, felizmente, o Brasil parece deixar para trás. Em meio ao desgaste econômico geral, os depósitos à vista e em poupança nos bancos, principal fonte do programa de financiamento da agricultura, escassearam. Mas as autoridades brasileiras insistiam em ignorar o fato, fantasiando - e de maneira oficial - com aumentos de recursos no Plano Safra que jamais chegaram ao agricultor dependente desse crédito para se manter na atividade.
A verdade é que o produtor está cada vez mais ciente dessa questão, alardeada pelas entidades do setor produtivo, em especial a Federação gaúcha. Afinal, aquela dificuldade toda em obter um empréstimo no banco, seja ele qual fosse, precisava de um motivo razoável, um fato simples por trás do emaranhado de números e da burocracia que só aumenta. Precisamente, o volume de R$ 194,37 bilhões anunciado pelo presidente da República, Michel Temer, e pelo ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), não mais causa tanto impacto. O que chama atenção mesmo são as taxas de juros, o tamanho do apoio no seguro agrícola, a abrangência das linhas de financiamentos. E nisso, pode-se dizer que o governo mais uma vez, em parte, deixa a desejar.
No ano passado, o alerta da Farsul foi de que, ao final do ano safra 2017/2018, era possível que os produtores estivessem diante de condições do Plano Safra superiores à Taxa Selic, que serve de referência para todas as demais taxas de juros do país. Uma situação absolutamente contraditória, considerando que esse mesmo Plano, em seu âmago, tem como objetivo estimular a produção e a competitividade da agropecuária brasileira. Pois agora, fica claro que a questão não foi negligência, mas sim uma opção real da União.
O Plano Safra 2018/2019 traz uma taxa de juros para custeio em 7% ao ano. Neste exato momento, a Selic está em 6,5% ao ano, e discute-se mais quedas do que um possível aumento. Apenas os produtores enquadrados no Pronamp é que, possivelmente, conseguirão montar a lavoura pagando menos que a Selic. Possivelmente porque, é claro, a seletividade de crédito permanece firme e forte.
O setor produtivo queria um corte maior: 5% ao ano foi o pleito da CNA. Faltou o governo lançar mão da “faca” que, sucessivamente, mitigou o apoio do Mapa no prêmio do seguro agrícola. É verdade que o aporte aumentou significativamente, como também é verdade que os R$ 600 milhões anunciados são apenas metade do necessário para mudar a realidade no campo.
O Plano Safra não é uma catástrofe, mas também não esteve à altura da contribuição do agronegócio na recuperação recente da economia brasileira, em termos de PIB, empregabilidade e controle da inflação.
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