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Nº 418 - ANO 32 - JULHO DE 2018
 
Fogueiras de junho - Blau Souza*
 

O amigo Luiz Coronel, em tempo de colégio e de Bagé, dizia num tom de brincadeira: “Saudade é espinho cheirando à flor”. Desde então assumi muitos espinhos e desisti de procurar novas definições para a agridoce saudade. Cutucado por alguns deles, bem pontudos, recordo festas juninas de minha infância. Valia a pena caprichar nas notas para entrar em férias no final de junho e ir para a campanha, para o Sobrado, a tempo de participar da festa de aniversário do meu irmão Zeca. Ela somava-se aos festejos de São Pedro e São Paulo em noites frias de pampa gelado. Os preparativos começavam dias antes e envolviam todo o pessoal da casa. Desde a compra de foguetes, passando pelo preparo de beberagens e guloseimas e arrematando com o erguimento da fogueira à frente da estância. Uma junta de bois carregava ramos de árvores escolhidas pelo seu Cirilo, homem para qualquer lida, e que levantava respeitável fogueira à distância segura das casas. Troncos de coronilhas tombadas eram valorizados pela qualidade de suas brasas, galhos de mata-olho evitados pela fumaça que produziam, enquanto cipós se encarregavam de dar unidade e consistência à estrutura já bem alta e com boa base. Rojões e brilhos faiscantes pelo céu anunciavam a festa para a gurizada gritona. Brinquedos de roda conviviam com sustos e correrias na fuga aos busca-pés. Fagulhas e belas chamas se desprendiam da fogueira que se ia consumindo até permitir que os mais afoitos começassem a pulá-la, e até mesmo que alguns poucos passassem descalços por sobre as brasas. Muita carne, batata doce, pipoca, amendoim, rapadura; muito mate e algum quentão, refrigerantes para a turma miúda, assim se desenvolvia a festa até seu final. No mais, a fogueira já transformada em cinza quente, assumia-se como original borralho em meio ao branco dos campos cobertos pela geada.
Colégio, faculdade e vida de médico mudaram meus cenários das festas juninas. As cidades as festejavam de forma intensa e com rara criatividade. Aspectos de um Brasil caipira e tropical mesclavam-se com costumes gaúchos, ainda que exigindo roupas quentes para enfrentar o frio. E como eram ingênuas e impregnadas de religiosidade. Ruas interrompidas viravam palcos nas vilas e bairros, organizavam-se quermesses com fins caritativos e que propiciavam muitos namoros. Mas tanto eu quanto as festas juninas fomos perdendo a inocência. De repente, eu me recusava a ficar próximo de fogueiras mantidas com pneus incendiados, cuja fumaça escura e malcheirosa emporcalha pessoas e suas roupas. Pior que isso, como estudante de medicina e estagiário do Pronto Socorro, passei a valorizar e a temer as festas juninas como fornecedoras de acidentados graves. O potencial dos fogos de artifício para produzir queimaduras e destruição de partes de nossos corpos é muito grande e, por causa deles, são muitos os que morrem ou têm membros amputados, cegueira e outras sequelas graves. Para piorar tudo isso, as vítimas geralmente estão entre os jovens, entre os inexperientes. E mais, as tragédias nem sempre atingem apenas indivíduos ou grupos familiares, pois se repetem a cada ano os incêndios causados pela queda de balões e que matam, devastam casas, florestas, campos cultivados e criações.
Estarei eu falando contra festas populares? Não, apenas as quero seguras, alegres, sem tragédias. Nada deve empanar os festejos juninos, capazes de reunir gente de todas as idades em torno das fogueiras. Proibidos os balões, é necessário que os fogos de artifício sejam usados com segurança e por quem saiba manejá-los. Que se conservem a tradição, o folclore e a religiosidade dessas festas sem medo de afrontá-las ao batalhar pela proteção nossa e do meio ambiente. Juninamente, desejo que os velhos, no futuro, possam falar delas como o faço hoje, mas com menos restrições graças à melhora no comportamento humano. Danos? Apenas os causados pelos espinhos perfumados da tal saudade.

*Médico e escritor
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