Jornal em Formato HTML
 
Nº 418 - ANO 32 - JULHO DE 2018
 
Plano Safra: realidade do crédito distante do volume prometido
 
Quando o assunto é Plano Safra, anúncio não é garantia. Foi o que apontou um estudo da assessoria econômica do Sistema Farsul, divulgado na véspera da cerimônia de anúncio dos novos valores do crédito rural. Ele mostrou que, até maio, a diferença entre o volume de crédito prometido e aquele efetivamente tomado pelos produtores brasileiros era de R$ 57,2 bilhões. Justamente numa safra de alta produção e que, certamente, demanda recursos cada vez maiores. Ao final do ano-safra, encerrado em 30 de junho, a diferença ficou em R$ 36,8 bilhões, o equivalente a 28% do total.
O que explica o descompasso é que as autoridades, sucessivamente, têm ignorado que a fonte de recursos, os depósitos à vista e em poupança nas instituições financeiras, não condizem com a realidade expressa no Plano Safra. Quando o montante anunciado aumenta sem base real, os bancos precisam criar uma série de exigências maiores para liberar os contratos aos produtores, causando o problema da seletividade no crédito. Ou seja, na prática, o anúncio não é benéfico, à medida que reduz o número de contratos e o valor médio sobe, tornando o crédito inacessível para a grande parte dos agricultores brasileiros.
A diferença entre os valores anunciados e os disponibilizados teve acentuação a partir de 2015. A diferença em 2007/2008 foi de R$ 6 bilhões, cerca de cinco vezes menor que a de 2017/2018. Ao mesmo tempo, o número de contratos de crédito rural caiu de 327,4 mil para 164,5 mil no período, enquanto o tíquete médio saltou de R$ 22,7 mil para R$ 188,8 mil. A preocupação está na manutenção do formato atual, que acaba por acelerar o processo de seletividade do crédito.
O presidente do Sistema Farsul, Gedeão Pereira, explica que o objetivo do estudo não foi o de gerar polêmicas, mas colaborar para a melhora das políticas públicas, evitando o crescimento de distorções. “O Sistema Farsul entende que, para esse aperfeiçoamento, a mensuração e análises são passos importantes e cabem ao setor privado. É isso que estamos fazendo”, comentou. O Sistema Farsul já havia feito levantamentos semelhantes nos anos anteriores, como lembra o economista-chefe, Antônio da Luz: “Queremos contribuir para que os planos agrícolas sejam cada vez mais eficazes. Buscamos fazer uma discussão sobre os resultados para que, olhando para eles, possamos ter políticas melhores. E o que mostram até aqui é que ainda há muito para ser feito”, avalia.
O Sistema Farsul também reforça que, ao contrário do que muitos pensam, os valores que compõe os planos agrícolas não são públicos, mas oriundos do funding formado pelos depósitos à vista e poupança, além de recursos livres das próprias instituições financeiras.
voltar