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Nº 420 - ANO 32 - SETEMBRO DE 2018
 
Meus jardins - Blau Souza*
 
Será que alguém se prepara o suficiente para a aposentadoria? E sem as queixas pelas dificuldades crescentes da velhice? Acredito que sim, e divido com vocês um pouco da experiência que estou vivendo. Preparei-me para interromper as atividades de cirurgião cardiovascular aos setenta anos de idade, mas só as interrompi por completo próximo dos setenta e cinco. Era comovente o apelo dos colegas mais novos para que prosseguisse, mas eu tinha consciência de que os sobrecarregava, além de catalogar a cada dia limitações crescentes como cirurgião. O cansaço era grande quando a cirurgia passava das cinco horas de duração, as mãos não tinham a mesma firmeza, os olhos sofriam por trás das lupas... Parar se impunha, até porque a equipe não era tão grande a ponto de dispensar meu trabalho durante boa parte das cirurgias. O bom é que os desafios de cuidar de área rural, a vontade de ler e escrever, as viagens e os cuidados com a família preencheriam, como preenchem, com sobra, o tempo deixado pela medicina. Isso tudo, numa aposentadoria planejada, assegura a sensação de estar a viver, senão a melhor, com certeza, uma boa idade. Com a fé e a gratidão dos emotivos, repetiria palavras que minha sogra enunciava sorrindo, despreocupada com possíveis infrações de natureza transcendental: “Deus é pessoa muito boa”...
Mas afinal, hoje, eu quero é falar das atividades na campanha e de iniciativas para ter uma vida sadia e ocupada. Duas decisões exigiram posicionamento radical: passar a administração da estância para um dos filhos, para isso devidamente preparado; e deixar de montar. A passagem de comando em vida dispensa comentários e está conectada com visão de futuro e com a adequada capacitação do escolhido. Abandonar o cavalo foi difícil, mas surgiu como necessidade de autopreservação. A instabilidade do joelho esquerdo ao usar o estribo para montar, associada a cirurgias para colocar placa num antebraço e evacuar hematoma intracraniano, tudo por conta do último tombo, desautorizavam aventuras equestres. A necessidade de uma atividade física que substituísse a academia e o golfe citadinos, associada à vontade de fazer algo útil, empurrou-me para o cabo da enxada. De início, associei-me aos peões na luta contra o Annoni, pasto africano muito resistente e que foi semeado por muitos fazendeiros para melhorar suas pastagens. Hoje reconhecido como agressivo invasor, pobre em proteínas e muito fibroso ao amadurecer, o tal pasto exige controle que significa erradicação, pois tende a tomar conta dos campos em que surge. Agrada-me a humildade do uso da enxada, bem menos aparatosa do que cavalgar potros num pampa cheio de tradições e de lutas. Mas não se enganem com o velho curvado sobre a enxada, não o julguem um desajustado, um insatisfeito. Na verdade, não me basta o controle do Annoni, e vou criando áreas que chamo de “meus jardins” em terras reconquistadas à soja. Em áreas de limites imaginários, exerço atividade real e criativa. Vou combatendo o alecrim, a pita, a flor roxa, as ervas espinhentas incluindo o caraguatá, a carqueja, a buva, a maria-mole, a guanxuma e tantas outras pragas, enquanto espicho os olhos satisfeitos sobre as muitas touceiras ou manchas de melador, kikuio, flexilhas, cevadilha, pega-pegas, outras leguminosas, e sobre um azevém perenizado pelos cuidados dispensados ao solo e subsolo. Afinal eles merecem tratamento também na ausência da soja. Faço aposta num banco: o de sementes, que teima em existir apesar dos anos com monocultura e defensivos. Também aposto nos tratores de apoio à pecuária, nas roçadas de campo, na preservação dos banhados e cursos d’água, em que fauna e flora embalam nossas vidas. Amigos, de uma coisa eu não desisto enquanto uso a enxada. Não desisto de pensar grande e idealizar textos como esse que divido com vocês. Afinal tudo tem explicação científica e o uso da enxada em “meus jardins” libera a cabeça para criações sem fim, reforçada pelas endorfinas decorrentes do salutar exercício físico.

*Médico e escritor
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