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Nº 421 - ANO 32 - OUTUBRO DE 2018
 
Visitantes açorianos - Blau Souza*
 
Luiz Antonio de Assis Brasil e o escritor açoriano Carlos Tomé, junto com suas mulheres, percorreram a América do Sul numa bela excursão. Como Carlos desejava encerrar a viagem no pampa gaúcho e brasileiro, Assis Brasil e eu planejamos a estada dele e da Idelta entre nós, na Salamanca, estância em Lavras do Sul, que é minha e por herança açoriana. Apesar do inverno rigoroso, tudo andou bem num final de julho, sendo de lamentar, apenas a curta permanência do casal nas Lavras, e que Luiz Antonio tenha estado só por algumas horas conosco, já que ele e Valesca tinham compromissos inadiáveis pós-viagem. Carlos Tomé, escritor e jornalista, recebeu o título de cidadão porto-alegrense em 2011, após reportagem premiada, e que virou livro, sobre a atuação dos açorianos em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul. Tornou-se um conhecedor da terra e do povo gaúchos, mas nunca participara do dia a dia de uma estância em pleno pampa.
Portugal e os portugueses sempre me empolgaram tanto como turista, quanto nas pesquisas sobre história. Que dizer então dos açorianos, que vieram para o Rio Grande sem sonhos dourados, tão somente buscando um lugar para viver com suas famílias. Aqui se estabeleceram com muito trabalho e vida austera, cheios de religiosidade. Mas o impacto causado foi grande, embora falassem a mesma língua e obedecessem ao mesmo rei. Afinal, o Rio Grande da metade do século XVIII contava com quatro mil habitantes brancos ou mestiços, e chegaram mais de dois mil açorianos para habitá-lo. Eles chegaram pobres e dispostos a fazer do nosso chão a sua pátria. Conseguiram isso com sobras e foram guerreiros na defesa de uma pátria em formação, cujas fronteiras ajudaram a estabelecer.
Por ser um apreciador da história e da geopolítica do Cone Sul da América Latina, reavivei conteúdos de computador e de gavetas antes da chegada do casal à Salamanca. Compartilhei com eles e com Assis Brasil, fatos pouco conhecidos de nossa história, até porque relacionados com período em que a maior parte do Rio Grande estava sob domínio espanhol entre 1763 e 1776. Ocorreu-me considerar como um dos maiores elogios aos ilhéus, a ação de Don Pedro de Cevallos, um dos grandes vultos da Espanha na sua política ultramarina. Ele, do mesmo modo que Félix de Azara, não era apenas guerreiro ou negociador. Ambos preocupavam-se com a permanência efetiva nas terras conquistadas, coisa mais própria dos portugueses do que dos espanhóis. Pois foi Cevallos que, logo após conquistar grande parte do Rio Grande, quis garantir para a Espanha o concurso de agricultores e civilizadores da mais alta qualidade, os açorianos, que viviam nas imediações da cidade fortaleza de Rio Grande. Como foi isso? Convenceu-os a migrar para terras mais próximas do Rio da Prata e do centro político da América Espanhola. Foi assim que, em três oportunidades, longas filas de carretas percorreram o pampa e chegaram a Maldonado para ocupar as terras prometidas. Colonos açorianos com suas famílias e pertences, sobretudo das Ilhas de Torotama, do Martins ou do Povo Novo, enchiam as carretas. Também havia desertores das forças portuguesas e até escravos de colonos mais prósperos, todos em lento deslocamento sob a proteção de soldados espanhóis. Cevallos quis homenagear o rei Carlos III de Espanha e a nova povoação chamou-se San Carlos, hoje simpática cidade próxima de Punta Del’Este. Don Pedro de Cevallos logo deixou de ser vice-rei de Buenos Aires e voltou para a Espanha. Muitos de seus planos foram mudados e não poucos migrantes voltaram para o Rio Grande. Mas o conceito que ele fazia dos açorianos merece registro nosso e dos hermanos. Gerações de descendentes dos ilhéus, no Brasil, no Uruguai e pelo mundo, comprovam sua excelência como civilizadores. E, ainda hoje, o mar continua a abrir-se às gentes das belas ilhas vulcânicas dos Açores.

*Médico e escritor
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