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Nº 422 - ANO 32 - NOVEMBRO DE 2018
 
Enfrentamento de crises - Blau Souza*
 
A necessidade crescente de alimentos e de celulose no mundo têm tido reflexos diretos no Rio Grande do Sul. Agricultura altamente sofisticada e plantação de florestas em áreas nunca desmatadas não ocorrem por acaso. E tais atividades resultam em redução continuada das áreas de pastoreio e alterações de paisagem, flora e fauna de um pampa a ser defendido. Claro que campos de criação, lavoura e florestas podem e devem conviver pacificamente. Mas quando se vive uma crise na pecuária, alongada por mil e uma razões, cresce essa tendência reducionista, e escrevo essa crônica para espantar certo amargor que vai além da existente na erva do mate nas madrugadas.
Notícias de um século atrás, falam de fazendeiros apelando ao governo do Estado para que fosse permitido o abate de matrizes, apesar de disposição federal que o proibia em todo o país. Logo após, era festejada a participação do Dr. Borges de Medeiros por ter conseguido tal intento. Na verdade, por ocasião das crises, tidas como cíclicas na pecuária, o abate de matrizes representava uma das saídas para os produtores. Hoje, cem anos depois, tal comportamento não está afastado, mas surge como uma entre muitas alternativas para fugir aos baixos valores estabelecidos pelos frigoríficos na compra de bois gordos. Vender animais para serem terminados em confinamentos passou a ser prática comum, bem como a venda para navios que transportam gado em pé para consumo em países do Oriente Médio. Serão tais práticas, as melhores soluções? Certamente que não, mas atuam como alternativas válidas num mercado que se caracteriza pela inexistência de uma cadeia racional, capaz de assegurar valores e preços satisfatórios nas duas pontas: produtores e consumidores finais. De qualquer maneira, é importante que não se perca a noção do alto valor de nossa carne e que será absorvida tanto pelo mercado externo quanto pelo interno. É preciso que não se abandonem as boas práticas no aproveitamento dos campos nativos e melhorados por causa de crises, ainda que elas sejam duradouras e cheias de reflexos negativos. Frigoríficos enormes e hegemônicos, com dinheiro fácil e propiciadores de propinas mundo a fora, certamente já mostraram o quanto podem ser nocivos nas mãos de pessoas desonestas e despreparadas. Frigoríficos que assegurem cortes especiais, capazes de concorrer em nichos sofisticados de mercado no Brasil e no exterior têm de existir, mas não podem ser os únicos. Matadouros regionais e municipais não podem fechar suas portas, e nenhum outro terá como eles, facilidade para estabelecer tabelas de abates, antecipação de renda e outras vantagens para fornecedores conhecidos e fiéis, sobretudo entre pequenos e médios produtores. Mas todos têm de ser fiscalizados e integrar rede pública e abrangente na luta contra o abate clandestino e o abigeato.
Num passado difícil em que os períodos de estiagem e os surtos de aftosa afetavam a todos em fase anterior às vacinas, souberam nossos antepassados vencer desafios como o melhoramento genético dos rebanhos e o acréscimo de pastagens de inverno em nossos campos, cuja cobertura vegetal foi conservada para satisfação do mundo. Eles acreditavam no futuro e conviviam com a natureza. É preciso que conservemos a mesma sina e o façamos estimulados por uma visão de século XXI, certos de estarmos produzindo um dos mais completos e gostosos alimentos, cuja aceitação crescerá na razão direta da diminuição da pobreza num mundo menos sujeito a utopias. É preciso preparo para vender ecologia, sendo difícil imaginar que o mundo resista ao consumo da carne de animais criados em campos com pasto nativo, bebendo água de sanga, subindo e descendo suaves coxilhas. Busquemos a excelência na qualidade de vida, nossa e dos nossos animais. E isso reforçará nossa comprovada capacidade para enfrentar crises.

*Médico e escritor
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