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Nº 422 - ANO 32 - NOVEMBRO DE 2018
 
Uma vela acesa descendo a correnteza - Alcy Cheuiche*
 
O velhinho tomou outro trago de cachaça. Olhou o copo vazio contra a luz do lampião, chupou os lábios como num beijo e respondeu a pergunta dos meninos:
- Encontrar o corpo dum afogado? Só com uma vela acesa descendo a correnteza.
- Como, tio Farra?
- Assim como eu disse.
- Mas... A vela se apaga na água.
- Como vamos fazer para ela ficar acesa?
- E como vamos saber onde está o morto?
O velho Farra arregalou os olhos com exagero. Pegou a garrafa e encheu meio copo com mão firme. O cheiro da bebida se misturou ao de cachorro molhado e lenha queimada.
- Vocês perderam um afogado?
- Não senhor.
- Deus nos livre.
- Era só... para saber.
- Então, está certo. Vou mostrar para vocês.
O menino mais velho se levantou como erguido por uma mola.
- Vou buscar uma vela no oratório da mamãe.
O irmão do meio levantou-se devagar.
- Do que mais vamos precisar?
- De um prato de alumínio.
- Raso ou fundo?
- Fundo.
- Deixa que eu pego na cozinha.
O caçula não se mexeu do pelego. Tio Farra passou a mão calosa sobre seus cabelos suaves.
- Tu tens medo de afogado?
- Não... sei. Nunca vi um.
A chuva voltou a cair sobre o telhado do galpão. O velhinho mexeu num dos bolsinhos da guaiaca e tirou dele um relógio redondo. Aproximou-o do lampião de querosene, forçando seus olhos míopes.
- São quase nove horas. O patrão deve estar chegando do outro lado do passo.
- Posso... ir com o senhor?
Tio Farra mostrou seus dentes cariados.
- A patroa ia me tirar o couro.
- Eu me escondo... Debaixo do seu poncho. Ela não vai ficar sabendo.
Os outros dois meninos chegaram correndo, respirando forte.
- Aqui está a vela...
- ...e o prato de alumínio.
Tio Farra tomou outro trago de cachaça.
- Me dá o prato. E a vela também.
Acomodou o prato sobre os joelhos, acendeu o isqueiro a gás e passou a chama azulada pela parte inferior da vela. O cheiro de sebo derretido. As gotas foram caindo no prato, todos os olhos grudados nelas. O velhinho apertou a vela sobre o sebo, ainda mole, mantendo-a bem reta. Depois moldou a massa esbranquiçada em volta da vela, parecendo não queimar os dedos grossos.
- Tá pronto. Agora só falta acender a vela e largar o prato água abaixo.
- E...
- ... como é ...
- ... que se encontra o defunto?
Uma buzina soou nítida: uma, duas, três vezes, entre o ruído da chuva. O velho largou o prato no chão e levantou-se. Acomodou o chapéu na cabeça e deixou cair as abas do poncho até as botas.
- Bueno, se acabou a conversa. O patrão está me esperando do outro lado do rio.
- Mas...
- ...de manhã...
- ...o caminhão atravessou o passo.
- De manhã. Agora já é de noite.
Uma voz de mulher se ouviu bem próxima:
- Nove horas meninos cama!
- Podemos esperar o papai?
- Nos deixa, sim, mamãe?
- E eu... posso... ir junto?
O vulto que enquadrava a porta estendeu suas mãos para a luz amortecida.
- Até que o Farra vá e volte na canoa, vai levar mais de uma hora. Todos para a cama agora mesmo! Se esqueceram que amanhã vamos carnear o porco?
Tio Farra já patinava no barro em direção ao passo. Os meninos tentaram esperá-lo acordados, mas não conseguiram. Só no outro dia ficaram sabendo. A casa e o armazém cheios de gente. A mãe e a irmã mais velha servindo café como num velório. O pai, ainda molhado, contando a história em voz baixa.
- Depois da desgraça, eu fui até o Silvino e pedi um cavalo emprestado. Tinha que atravessar o rio de qualquer maneira. O Farra... eu vi com a lanterna quando ele caiu da canoa.
- Devia estar borracho. Uma vez eu atravessei com ele e...
A voz da mãe elevou-se irritada.
- Mais respeito com os mortos, seu Simplício.
- Mas será...
- ...que ele morreu
- ...mesmo?
Com a chegada dos meninos, os adultos mudaram de assunto.
- Quer um mate, seu Simplício?
- Vou querer sim, obrigado.
Os meninos maiores choravam encerrados no quarto. Escureceu cedo, sem chuva. O caçula adormeceu nos braços da mãe. O pai voltou já noite alta, as botas sujando de barro o piso da sala.
- Não conseguimos encontrar o corpo. O Polidoro quase se afogou procurando. Mandei que parassem.
Pelas frestas da parede de madeira, os dois irmãos viram e ouviram tudo. As carinhas apertadas uma contra a outra. Os ombros tremendo.
- Vamos contar para o papai?
- Sobre a vela?
- É.
- Ele vai dizer que é bobagem. Está morto de cansado.
- Me espera no galpão. Vou pegar os fósforos na cozinha.
- De jeito nenhum. Eu vou contigo.
- Tu tá com medo, guri?
- Me cagando. E tu também.
Mas foram em frente. Os pezinhos gelados moldando a lama. Só o céu estrelado vendo tudo lá de cima.
Na margem do rio, cheiro de barro e peixe morto. Gastaram meia caixa de fósforos para acender a vela. O prato flutuou, mas logo se prendeu nas pontas das ramas de um sarandi. Um segurando a mão do outro, com água pela barriga e pelo peito, os guris empurraram o prato em direção da correnteza. E voltaram correndo, sempre de mãos dadas, tropeçando, até o refúgio da casa, da cama e dos cobertores.
Sem testemunhas, aquele ato de coragem poderia ter sido em vão. Mas um pescador, um pouco mais abaixo, quase morreu de susto ao ver a vela acesa descendo a correnteza. Então, depois que se recompôs, viu quando a vela girou como num redemoinho, girou, girou, até se apagar.
E foi ali mesmo que o Polidoro mergulhou e encontrou o corpo morto do tio Farra. Inchado, mordido pelos peixes, trancado nuns galhos no fundo do rio.

*Escritor
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