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Nº 422 - ANO 32 - NOVEMBRO DE 2018
 
Definição do vazio sanitário da soja é urgente
 
Rio Grande do Sul e Santa Catarina são os únicos estados brasileiros que produzem soja e ainda não adotam o vazio sanitário - ou seja, período fixo em que as plantas devem ser eliminadas do campo, livrando a propriedade e arredores dos esporos de ferrugem asiática. É possível, porém, que essa realidade mude em breve no campo gaúcho. Há discussões em curso entre Farsul, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Secretaria da Agricultura, Pecuária e Irrigação do Estado (Seapi), Embrapa e outras entidades. A expectativa é chegar a uma definição o mais rápido possível, iniciando campanha técnica de conscientização aos agricultores.
O objetivo do vazio sanitário é preservar os três grupos de princípios ativos de controle da ferrugem da soja: triazóis, estrobilurinas e carboxamidas. Sem a “limpeza” do campo no pré-plantio, o fungo, que precisa de matéria para sobreviver, tende a permanecer de uma safra a outra com mais frequência, o que acaba gerando mais aplicações de defensivos e favorece o aparecimento de pragas mais resistentes rapidamente. “Nos próximos seis anos, não existe previsão de lançamento de novo grupo ou de produtos mais eficientes”, alerta o vice-presidente da Farsul, Elmar Konrad, que participou de reunião sobre o assunto na Comissão Nacional de Cereais, Fibras e Oleaginosas da CNA, em Brasília, dia 23 de outubro. O impacto financeiro seria enorme, conta ele: “A ferrugem chega a limitar em 70% o potencial da lavoura de soja. Uma quebra de resistência seria catastrófica para a produção”.
Konrad conta que o clima gaúcho, que normalmente apresenta temperaturas baixas no inverno, contribui para uma redução natural das plantas no campo. Duas geadas fortes no Estado, por exemplo, resolveram a questão nas lavouras este ano. “Mas tem anos que o frio não é suficiente para matar a soja, que fica ali perdida, fora de época, dando espaço para o fungo”, relata. É nesse cenário que o produtor deve tomar a iniciativa, deixando o campo livre de hospedeiras por, no mínimo, 65 dias - eliminando assim os esporos da ferrugem.
A expectativa é que os gaúchos adotem calendarização, a exemplo do Mato Grosso, cujo período de plantio é similar ao dos gaúchos: de setembro (15/9 no RS, 21/9 no MT) a dezembro (31/12 em ambos), conforme o Zoneamento Agrícola de Risco Climático do Mapa. Por lá, é obrigatório eliminar as plantas nas propriedades e arredores. O Rio Grande do Sul, que sofre os efeitos de geadas, definirá período para tanto. Discute ainda uma amplitude maior da janela para áreas irrigadas de pivô central, que fazem safrinha na resteva do milho, até por volta de 20 de janeiro.
As tratativas começaram na safra passada, por iniciativa da regional do Ministério da Agricultura, que procurou a Farsul e outras entidades, como Fetag-RS, Aprosoja, Apassul, Acergs e Fecoagro, para ouvir a opinião do setor. Com o plantio da nova safra, o assunto voltou à tona com mais força. Também há entendimento geral de que o governo terá de buscar o diálogo com Paraguai e Bolívia sobre a possibilidade de adoção de vazio sanitário pelos dois países, visto que a distância não evita que ventos tragam esporos às lavouras brasileiras. “O vazio sanitário é uma tratativa nova que não está totalmente disseminada no campo. Temos que provocar o quanto antes, para não ficarmos como vilões do processo de perda de tecnologia”, defende Konrad.

Safra
O plantio da safra de soja teve início em outubro, com intensificação nas últimas semanas, segundo a Emater/RS. Até o dia 31/10, em torno de 10% da área projetada para o ciclo estava semeada no Rio Grande do Sul. A entidade espera crescimento de 2,3% na lavoura da oleaginosa, alcançando 5,89 milhões de hectares em 2018/2019.
O plantio teve baixa evolução apenas nas áreas com maior umidade, como no Médio Alto Uruguai, ainda conforme informativo da instituição. A etapa não apresentou problemas em regiões como Alto Jacuí, Celeiro e Noroeste Colonial, em que áreas de pastagens de bovinos de leite apresentaram menor resíduo de culturas e solo mais denso. Sobre as primeiras áreas plantadas, a tendência é de boa germinação, emergência e estande de plantas.
A Emater/RS também mostra que ainda era significativo à época o movimento de agricultores para aquisição de insumos. O Sistema Farsul orienta sempre aos produtores que façam as compras nos momentos de baixa no mercado, basicamente antes da entrada do custeio da safra, de forma a garantir melhor remuneração no final do ciclo, sobretudo diante das sucessivas altas registradas no custo de produção dos últimos anos.
Apenas de um ano para cá, o avanço no custo foi de 8,8%, chegando a R$ 3.303,54 por hectare neste ciclo. Os números são do projeto Campo Futuro, realizado por CNA, Centro de Estudos Avançados em Pesquisa Aplicada (Cepea/Esalq) e Sistema Farsul. A referência é o mês de agosto.
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