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Nº 426 - ANO 33 - MARÇO DE 2019
 
Genética e agricultura de precisão: Gedeão abre as porteiras da Santa Maria
 
O contraste entre o verde dos campos e o laranja das áreas dessecadas anunciam, logo ao atravessar a primeira porteira, que a época é de trabalho acelerado na Estância Santa Maria, a 52 quilômetros do centro de Bagé. Hora de colocar a semente na terra para mais uma safra de soja na região, o que gera toda uma dinâmica dentro da propriedade. Do campo, o azevém vai para o silo; o gado troca de coxilha ou ganha novo destino; as máquinas pedem passagem.
“Vamos a campo antes que chova”, convida o proprietário da Santa Maria, Gedeão Pereira, 70 anos, observando o céu nublado que descansa sobre o coração do pampa, como chama a região. De colete cinza da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB) e a logomarca da estância estampada na camionete e no boné, o homem lidera uma curta viagem até uma das seis unidades que compõem a fazenda, que ainda trabalha com pecuária de corte, arroz em várzea e florestamento.
O cartão de visita é uma vaquilhonada de cerca de 200 animais da raça Hereford, uma prova da excelência genética e produtiva da Santa Maria. As fêmeas hoje chegam ao primeiro entoure com pouco mais de um ano de idade por lá. “Significa que, já na próxima temporada, estarão produzindo o primeiro terneiro”, lembra Gedeão. O peso médio ultrapassa os 330 quilos, o que indica, além de uma seleção genética de ponta, cuidados intensos em nutrição animal. Os ganhos do rebanho variam de 0,8 quilo a 1,5 quilo por cabeça/dia ao longo do ano.
O gado fica alerta quando o capataz chega, montado em uma motocicleta. “Só de vez em quando que ele vem a cavalo”, avisa o proprietário. Quando precisa, Gedeão aciona os funcionários pelo rádio, porque o sinal de telefone é nulo. Vários deles inclusive usam aparelhos “castelhanos”: graças à proximidade com a fronteira, é possível pegar a rede uruguaia e ter acesso a internet e aplicativos como o WhatsApp.
A verdade é que a fazenda, de certa forma, já foi uruguaia. “Ficamos por um acidente geográfico do lado de cá”, diz ele. A morte dos avós, em 1927, vítimas da febre tifóide, fez o bageense Alcebíades Jacinto Pereira, pai de Gedeão, atravessar a fronteira, onde herdou 80 hectares de terra e arrendou outros tantos. Esse foi o ponto de partida da Estância Santa Maria, que aos poucos voltou ao lado brasileiro, pela aquisição de campo. “Se tivermos condição de comprar um metro de solo, compramos”, conta ele.
A Santa Maria cresceu em regime de sociedade entre os pais, Gedeão e os três irmãos. Destes, apenas ele e uma irmã estão vivos. Mas a família está definitivamente maior hoje, como era de se esperar. Gedeão tem três filhos e cinco netos. Aquele que leva seu primeiro nome, Gedeão Avancini Pereira, o Dom, hoje administra, de modo autônomo, várias partes do negócio. E é bem provável que mais uma geração de agricultores se consolide nos próximos anos: Conrado, 19 anos, cursa administração em Porto Alegre e já mostra vocação para a lida do campo, orgulha-se o avô.
Dom é quem comanda o desfile de plantadeiras numa das áreas de soja da propriedade quando Gedeão chega, ao cair das primeiras gotas de chuva. São duas máquinas de precisão, característica comum a todo o processo produtivo desde que o grão é cultivado, há oito ou nove anos. Isso porque a Santa Maria tem a meta clara de eliminar as adversidades que marcam a atividade agrícola. Conta, por exemplo, com seis pivôs centrais para a soja, que cobrem área de 690 hectares. Ao todo, foram semeados 3 mil hectares com a oleaginosa este ano.
Já na próxima década, a produção deve se tornar 100% irrigada, possivelmente adotando sistemas inteligentes de medição e controle de água, por meio de sensores no solo, em paralelo. O investimento retorna rapidamente, garante Gedeão. “Ano passado, que teve seca, colhemos 15 sacos por hectare sem pivô e 60 com ele”, relata. “Seguro, pecuária forte e pivô central são coisas que não podemos abrir mão.”
Parte da área, no inverno, serve para o plantio de azevém, que abastece marca própria do negócio: as Forrageiras Santa Maria (azevém, cornichão e trevo branco), comercializada com vizinhos e outros produtores da região. Já o arroz é produzido em várzea, com investimento em 500 hectares. A água utilizada vem das represas criadas artificialmente ao longo dos mais de 40 anos que a família aposta na cultura.
Toda essa produção de grãos é encaminhada à estrutura de armazenagem, com capacidade de 270 mil sacos, o que representa melhores condições de negociação comercial, sem o imediatismo de ter de vender logo para dar lugar a outras culturas.
Alguns números mais precisos da propriedade, Gedeão não consegue lembrar. É o preço que paga por dedicar a maior parte da semana ao comando da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), tarefa que exerce desde o falecimento do ex-presidente e amigo pessoal Carlos Sperotto, em dezembro de 2017. Geralmente, fica de segunda a sexta em Porto Alegre, enquanto o papel de produtor rural fica para os finais de semana. “Hoje, aqui eu sou visita”, afirma. Mas exagera um pouco — numa das voltas pela Estância, tinha na ponta da língua a semana em que uma das áreas seria semeada e onde estava cada parte do rebanho.
A realidade está posta nos próximos três anos: Gedeão Pereira foi eleito no início de novembro para o triênio 2019-2021, em chapa única, composta ainda por 30 diretores de todas as regiões do Estado. Mandato que promete ser movimentado: além de presidir Farsul, Senar-RS e Casa Rural, tornou-se recentemente o diretor responsável pela área de Relações Internacionais da CNA, em função da experiência em negociações externas, principalmente na América do Sul. A liderança exigiu dele, recentemente, uma semana de viagem à China, com o objetivo de prospectar negócios para os setores de frutas e laticínios, entre outros. Gedeão é também representante da CNA no Fórum Mercosul da Carne (FMC) e na Federação das Associações Rurais do Mercosul (Farm).
É uma responsabilidade que o médico veterinário, formado em 1971, pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), talvez não esperasse em meados da década de 1970, quando iniciou a trajetória de representação classista, na diretoria da ABHB. Em 1992, tornou-se o primeiro presidente da configuração que uniu a Associação Rural e o Sindicato Rural de Bagé. À frente da entidade, foi um dos responsáveis pela implantação da filosofia do “Novo Ruralismo”, que enfrentou a onda de invasões de terra pelo Movimento Sem Terra (MST ) e as vistorias do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). As mobilizações o levaram até a Farsul, onde comandou a Comissão Fundiária, depois foi diretor e 1º vice-presidente de Sperotto, para enfim assumir a presidência da instituição.
Gedeão lembra bem a primeira vez que veio para a Farsul, história que começou muitos anos antes, quando moço. A Santa Maria recém tinha se tornado a primeira propriedade do Brasil a reduzir a idade de abate para 24 meses, nos idos de 1970. “Era um resultado (redução da idade do abate) que causava muito espanto na época. Foi a minha primeira viagem representando o Hereford, e logo para conhecer a Farsul, uma entidade enorme”. Não por acaso, da cadeira presidência, faz quetão de estimular novas ideias para o agronegócio, bem expressas na figura das agro startups.
Como que para marcar a memória, o líder da Farsul fez uma última parada na propriedade, no terreno mais elevado, a poucos metros da casa onde mora. De lá, o olhar é capaz de alcançar Bagé, a vizinha Dom Pedrito e também o Uruguai. Lugares que compartilham a singular beleza do pampa, com a contribuição humana. A marca da Estância, que lembra um coração invertido, faz então todo sentido. Pois o campo faz a Santa Maria, e vice-versa. E ela está, como bem diz Gedeão, no coração do pampa.

Texto Samuel Lima
Fotos Tiago Francisco
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