Jornal em Formato HTML
 
Nº 426 - ANO 33 - MARÇO DE 2019
 
1918: guerra, gripe, carvão, carreiras - Blau Souza*
 
Tudo ocorre por acaso ou é determinado pelo destino, de acordo com o Mactub dos árabes? Penso nisso ao remexer em memórias antigas, que evocam outras ainda mais remotas, de pessoas que me foram muito queridas. Misturo gentes e cidades que participam na gênese de meus afetos: Lavras, São Jerônimo, doutor Crispim, o Coronel João Menino, o castelhano Orfilo e algumas inconfidências de minha sogra, a inesquecível dona Regina. Falo de coisas ocorridas cem anos atrás e que nunca acolherei como faço hoje. Inicio com anotação do estudante de medicina e remador Crispim Souza a falar de treinamento e piquenique pelas ilhas do Guaíba. Barco e guarnição do Tamandaré chegaram até São Jerônimo em 1913. Já em tempos de Segunda Grande Guerra, o comércio mundial sofria com o afundamento de navios mercantes. Era importante para o Brasil, contar com outro carvão mineral que não o importado da Inglaterra e a solução passava pela exploração das reservas existentes em São Jerônimo, no Rio Grande do Sul. Pelo menos em três frentes surgiram companhias que instalaram minas no Butiá, no Arroio dos Ratos e no Leão. A instalação e o funcionamento delas teve apoio decisivo do intendente de São Jerônimo, o coronel João Rodrigues de Carvalho, mais conhecido por Cel. João Menino e que administrou São Jerônimo enquanto Borges de Medeiros mandou no Estado. O apoio do município à mineração foi decisivo, diretores das companhias eram recebidos festivamente na estância do coronel, e não por acaso, as ruas iniciais do povoamento nas Minas do Leão receberam o nome das três filhas do intendente: Anita, Lourdes e Regina.Também em1918, o médico recém-formado, Crispim Souza voltou para sua terra e logo enfrentou o desafio da gripe espanhola. Instalou hospital improvisado nas antigas instalações de companhia inglesa, exploradora de minas de ouro. Morria muita gente pela gripe em todo o mundo e as comunidades preocupavam-se quando alguém desaparecia. Mas o castelhano Orfilo, guerreiro e vaqueano da confiança de Crispim, quando intendente e nas revoluções, costumava desaparecer de quando em quando. Com sua pequena estatura e rara habilidade, Orfilo era jóquei de carreiras de cancha reta com renome em todo Estado. Naquele 1918, fora convocado para ser jóquei em carreiras, que se constituíam na principal atração das festas organizadas nas Minas do Leão para festejar a abertura de um novo e importante poço. Afinal, os cavalos puro sangue do coronel João Menino exigiam jóqueis de categoria.
Como filho do Dr. Crispim, casado com uma filha da dona Regina e neta do coronel João Menino, acorelho notas sobre 1918, ano marcado pelo final da Segunda Grande Guerra, pela gripe espanhola e por desafios enfrentados pelo Brasil, única nação sul-americana a participar diretamente da guerra. A busca de soluções mobilizava o Estado. Além do fornecimento de carvão mineral, as charqueadas, por exemplo, foram forçadas a abandonar o sal de Cadiz e a substituí-lo por similar produzido no nordeste brasileiro. Gentes de terras remexidas em busca de ouro ou de carvão construíam vidas cheias de certezas e de quimeras. Tanto o coronel João Menino, quanto o doutor Crispim encerraram o protagonismo político ao acompanharem Borges de Medeiros em 1932, na Revolução Constitucionalista. Numa luta desigual, Borges apoiou São Paulo, tendo ao lado os antigos adversários libertadores, e enfrentando seus habituais defensores e pupilos republicanos: Getúlio Vargas, no plano federal, e Flores da Cunha no estadual. Com a derrota, Borges foi isolado em Recife; o coronel João Menino, da mesma forma que um tio e um primo meus, esteve preso por algum tempo. Lá, privado da liberdade, o coronel foi companheiro de cela de um jovem que se iniciava na política: Alberto Pasqualini. Mas essa já é outra história, impregnada de recomeços e sem jamais abandonar a esperança ou a sina de buscar novos rumos.

*Médico e escritor
voltar