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Nº 423 - ANO 32 - DEZEMBRO DE 2018
 
A forquilha de mata-olho - Alcy Cheuiche
 
— Três dias sem beber água. Quem tentou sair do galpão levou um tiro e morreu.
— Por que isso, Vô Jorge?
— Não foi por maldade, Perico. Era só a revolução.
Perico, ou Pedrinho, conforme era chamado pelo avô ou pela avó, encheu outra vez a cuia do mate com água quente. Entregou-a com cuidado ao velho e colocou a cambona junto das brasas. Sabia que ele ficaria calado até que o ronco final lhe soltasse a língua.
— Três dias sem chimarrão, sem café, só secura na boca, nos olho, no corpo todo. Pela cara dos outros dois, eu adivinhava a minha.
O guri recolheu a cuia, encheu um mate para si, e só então perguntou, com cuidado, para não afugentar o causo:
— Quem eram os outros dois, Vô Jorge?
— O castelhano Paniágua e o índio Gabriel. Ou o que sobrava deles...
Perico chupou mais dois goles, olhando direto para os lábios do velho, quase tapados pelo bigode branco, manchado de nicotina, até que voltassem a se mover.
— O correntino tinha bebido todo o mijo dele, de manhã cedinho. Agora tava com a faca na mão, olhando o índio com um olho e eu com o outro.
— ...
— Tava escolhendo o que ele ia degolá primeiro, pra bebê o sangue, o desgraçado.
O velho Jorge bateu com a mão esquerda na perna, e o neto saltou do banco, encheu logo outro mate e colocou a cuia na mão que a esperava, aberta em garra. Um gole só, que levantou o pomo-de-adão no pescoço fino, e a voz rouca sentenciou:
— O mate tá frio, mas não percisa aquecer mais água. Já tou verde por dentro.
Perico pegou a cuia e colocou-a no suporte ao seu lado. Se o avô se levantasse, estaria tudo perdido. Mas ele tateou os bolsos e o menino sorriu. Vai fechar um cigarro. Quem sabe hoje ele me conta tudo... Vem negaceando há dias.
— Quer que eu escolha a palha, vovô?
— Pra que? Dedo não precisa de olho... Tu sabe? Foi com esta faca aqui que o Paniágua ia degolá o índio Gabriel... ou a mim.
— Mas vocês não eram amigos? Não estavam peleando do mesmo lado?
— Era sim. Mas o Paniágua tava no direito dele, tava morrendo de sede.
O velho escolheu uma palha do maço e começou a sová-la com a lâmina da faca. Experimentou a textura entre os dedos e colocou-a atrás da orelha. Guardou o maço no bolso da camisa e, com a mesma mão esquerda, tirou o naco de fumo da guaiaca, no lugar onde, antigamente, guardava o relógio de bolso. Começou a tirar rodelas do fumo amarelinho, assim como quem descasca uma laranja. De vez em quando cheirava o côncavo da mão, e sorria.
Perico sacudiu a cabeça, louco para saber o fim da história. Mas o ritual era como na missa. Tinha que esperar que o avô sovasse o fumo picado, entre as duas mãos, num gesto de carinho. Que tirasse a palha guardada atrás da orelha, a dobrasse ao comprido e colocasse o fumo desfiado dentro dela. Que enrolasse o cigarro e passasse a língua pela beirada da palha áspera, para ficar bem colado. E tinha mais uma coisa. Nunca usava o isqueiro a gás. Pegava do bolso da bombacha um dos antigos, de mecha comprida e pederneira, e ficava batendo com a mão na rodinha até as faíscas pegarem fogo na ponta da mecha. Soprava então a brasa diminuta até que ficasse forte o suficiente para encostar nela a ponta do cigarro e acendê-lo, puxando baforadas que lhe murchavam as bochechas. Ufa! Agora os lábios se moveram de novo debaixo do bigode.
— O que nos salvou foi o mata-olho.
— Mata-olho? Foi esse castelhano que matou os olhos do senhor, Vô Jorge?
O velho riu alto, engasgou-se e cuspiu certeiro nas brasas.
— Já te contei que foi esta nuve branca que me tapou as vista. E levou tempo.
— Mas... E o tal de mata-olho?
— É uma árvore muito comum lá na fronteira. E, para nossa sorte, tinha uma quase grudada na janela daquele galpão.
— Não entendo mais nada, vovô.
O velho Jorge deu uma tragada comprida e acomodou a brasa do cigarro com a unha do polegar esquerdo, grossa como um casco.
— Te lembra que o galpão tava cercado há três dia, não por nossa causa, mas porque eles pensava que o nosso patrão, o Major Laurindo, tava lá dentro com a gente. Essas mentira de guerra, porque o Seu Major tava na Santa Casa do Alegrete, ferido no combate da ponte.
— E por que vocês não avisavam eles? Atavam um pano branco num pau e...
O avô riu novamente e, desta vez, engasgou-se de fato. Cuspiu, ficou vermelho, e só recuperou-se depois de duas boas tragadas no palheiro.
— Tu aprende essas coisa no cinema e pensa que é verdade. Pano branco... Eles davam tiro em tudo que se mexia, e nós também. Entramo sete no galpão e quatro já tavam morto perto do poço. Eles sabiam que nós tinha muita munição porque pegamo deles mesmo. E que o Paniágua atirava de Comblaim, de mira, até em cabeça de passarinho. Como queriam mesmo era o Seu Major, resolveram nos matá de sede.
— Ou se degolando pra bebê o sangue...
Perico disse isso e calou-se, assustado. A vó Mariana não gostava que o marido lhe contasse essas histórias de revolução. E ele, de medo que ela chegasse de repente, podia não dizer mais nada. Felizmente, ela anda lidando no forno desde cedo e só vai ter perigo quando o Vô Jorge sentir o cheiro do pão quente.
— E aí, vovô, o que aconteceu?
O velho pareceu não ouvir a pergunta, ocupado em bater a pedra do isqueiro para acender o cigarro, que apagara outra vez. Mas logo que puxou uma baforada, acomodou-se no banco e falou, com ar sonhador:
— Se o índio Gabriel não fosse meu parceiro de truco, o Paniágua perigava ter nos carneado os dois.
— Como assim?
— Quando adivinhei que o correntino ia degolá um de nós, eu pisquei o olho direito para o índio, tu sabe, a senha do ás de espadas. Ele entendeu e se preparou. Antes que o castelhano se levantasse, nós nos botamo nele, tomamo a faca e atiramo a carabina pra longe. Aí nós amarramo ele com um sovéu, que nem um salame, e ele ficou quieto, só bufando com a boca seca.
— ...
— Bueno, passado o perigo, tudo tava igual pra nós: a sede parece que voltou ainda mais forte. Foi quando o índio Gabriel veio com a história do mata-olho.
— ....
— Ele me falou bem assim, cada palavra saindo dura pela boca: tu já tentou achá água com forquilha? Meu pai tinha o dom e achou muitas vez. Mas eu não herdei isso dele. Quem sabe tu experimenta?
— Forquilha para achar água? gaguejou Perico.
— Eu também não conhecia, mas logo fiquei sabendo. O Gabriel disse para eu pegar a Comblaim do Paniágua e dar uns tiros pelo buraco perto da porta. Enquanto eu fazia isso, ele abriu o postigo da janela dos fundos e arrancou um galho do mata-olho.
— Um galho... grande?
— Que nada! Um pequeno, assim de uns dois palmos. Quando parou o tiroteio, ele puxou da faca e ajeitou a forquilha, com as três partes mais ou menos do mesmo tamanho. Despois olhou para mim e disse: a gente segura os dois lados da forquilha, assim, presta atenção, deixando a ponta para a frente. Pega e faz como eu disse.
— ....
— Eu peguei, mesmo achando que era uma bobagem, e ele me disse: caminha pelo galpão, sempre segurando firme as duas ramas da forquilha. Se tu tiver o dom, e se tiver água aqui debaixo do chão, a ponta da forquilha se dobra por conta própria e mostra onde a gente deve cavar.
— Que coisa mais esquisita, Vô Jorge...
— Também pensei isso na hora, mas foi o que nos salvou. Peguei a forquilha de mata-olho e fiz como o índio me disse. Fui caminhando pelo galpão, até que, perto duma tarimba quebrada, com uns pelegos por cima, a forquilha se mexeu por conta dela e apontou para o chão.
— Apontou... para o chão?
— Sim senhor. E aí o índio Gabriel pegou uma pá e se prendeu a cavar como um louco. Quando ele cansava, eu pegava a pá. Quando o buraco já tava com quase dois metro de fundura, apareceu o barro. Mais um palmo e a água brotou, tanta, que pudemo bebê de caneca.
— Que lindo, vovô!
— Tão lindo que nós demo mais uns tiros, quase festejando, desatamo o correntino e deixamo ele se enchê de água. Mas sem esta faca, que ficou comigo de lembrança.
— E depois, Vô Jorge?
— Dois dia despois, a nossa gente chegou do Alegrete e levantou o cerco, botando todo mundo a correr. E nos tiraram do galpão, os três meio morto de fome, mas com as barriga cheia d´água.
— ...
— Foi assim, Perico, sem mentira nenhuma, como eu to te contando.

*Escritor
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