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Nº 430 - ANO 33 - JULHO DE 2019
 
Farsul projeta crescimento de 3,4% na safra em 2019 e cobra soluções de crédito
 
Pelos números totais, a nova safra gaúcha de grãos promete ser uma das melhores da história. A projeção do Sistema Farsul é de 34,7 milhões de toneladas, alta de 3,4% em relação ao ciclo passado — apoiada na evolução de culturas como soja (5,3%), milho (8%) e trigo (17,5%). Não é recorde por pouco, ficando somente abaixo das 35,5 milhões de toneladas de 2016/2017, mas com larga diferença em termos de faturamento (14,2%). São esperados R$ 32,8 bilhões nesta safra, contra R$ 28,7 bilhões daquele ano.
“Os ventos do Brasil são o que melhor despertam o empresariado. Vemos um cenário altamente positivo para o próximo ano”, afirmou o presidente do Sistema Farsul, Gedeão Pereira, em coletiva de final de ano, transmitida em rede de 76 emissoras de rádio do interior gaúcho. Ele fez referência às eleições gerais de outubro, que ampliaram o número de políticos de pensamento liberal nas esferas estadual e federal. A entidade agora confia em avanços como aprovação da reforma da Previdência e da reforma tributária, agenda de concessões e privatizações, abertura econômica, novos acordos comerciais com a Ásia, obras de infraestrutura e mais agilidade nos licenciamentos.
As estimativas de safra constam no Relatório Econômico 2018 e Perspectivas 2019, apresentado na ocasião pelo economista-chefe do Sistema Farsul, Antônio da Luz. Os números mostram que a safra 2017/2018 teve realidades distintas no Estado, beneficiando parte dos agricultores e ampliando o prejuízo a outros. A soja, por exemplo, aumentou em 17,5% o faturamento bruto da produção, por conta da elevação da taxa de câmbio e dos preços internacionais favoráveis. Mas essa realidade foi aproveitada apenas pelos produtores da Metade Norte do Estado, que na média colheram bem. Já na Metade Sul, em função de secas com epicentro na Argentina, a produtividade e a renda encolheram.
Por conta disso, a colheita da oleaginosa retraiu 6,4% em 2017/2018, para 17,6 milhões de toneladas. Nem mesmo a quebra, no entanto, intimida os produtores da nova fronteira agrícola, que são os principais responsáveis pelo aumento de 2,5% na área plantada de soja no Estado em 2018/2019 (143 mil hectares). O Sistema Farsul projeta recuperação de 5,3% no volume de produção.
A expansão da soja deve absorver áreas de arroz, destaque negativo do estudo. Após duas safras consecutivas de preços abaixo do custo de produção e endividamento crescente, a área plantada no Estado deve baixar para 999,6 mil hectares (-6,5%). Consequentemente, a produção deve cair mais 5,3%, para pouco menos de 8 milhões de toneladas. “Historicamente, só estivemos abaixo desse volume em caso de catástrofe natural. Dessa vez, estamos reduzindo voluntariamente”, alerta da Luz. Gedeão ressalta que o prejuízo só não foi maior no ano passado por conta da atuação da Farsul e outras entidades para realização de leilões públicos de escoamento da safra (PEP e Pepro), que evitaram depressão ainda maior do mercado.
Quem surpreende na projeção econômica são as lavouras de milho e trigo. A primeira deve aumentar 3,4% em área e 8% em produção, mesmo após safra frustrante em 2017/2018 (quebra de 25%). “O produtor está apostando mais no milho em função da expectativa de preços melhores”, avalia da Luz.
Quanto ao trigo, a área pode expandir 31%, e a colheita, 17,5%. A explicação está na margem bruta de 2018, que deve fechar em prejuízo de R$ 97,80 por hectare. O resultado é ruim, mas cinco vezes mais brando que na safra anterior. “No caso do trigo, empatar (custo e faturamento) é razoável, porque o produtor ganha na soja”, explica o economista.
A preocupação do momento está na remuneração da safra. O custo de produção aumentou para soja (13,4%), milho (8,9%) e arroz (8,7%), por conta da desvalorização da moeda brasileira, que afeta o desembolso em insumos cotados em dólar. “Esse é o grande medo de 2019: como estará o câmbio no momento da colheita. A única certeza que temos hoje é o custo”, afirma da Luz.

Pecuária
Tanto a pecuária de corte, quanto a de leite já viveram melhores dias no Estado. Os abates apresentaram estabilidade, em 1,64 milhões de cabeças, sinalizando a manutenção do investimento. Já o faturamento retraiu 6% de um ano a outro, em valores nominais. “Fazem falta 12 milhões de clientes, que é o número de desempregados hoje no Brasil”, destaca o presidente do Sistema Farsul, Gedeão Pereira.
Antônio da Luz acrescenta que o Rio Grande do Sul está sentindo mais a crise do que outros estados brasileiros, por conta do número reduzido de frigoríficos habilitados no Estado para a exportação de carne bovina — apenas três do Marfrig e o Silva, de Santa Maria, em universo de 350 plantas. Ou seja, outras regiões conseguem vender mais para fora, equilibrando a demanda, enquanto os gaúchos “exportam tudo que dá”, mas não o suficiente. O consumo mundial de carne bovina cresceu 1,07 milhão de toneladas por ano, em média, desde 2015, pelos dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
A produção leiteira perdeu um terço dos produtores com a crise recente de mercado, impactado pela recessão econômica (o consumo brasileiro caiu 1% em 2015 e 4% em 2016) e pela disparidade de custos em relação ao Mercosul. Os preços acumularam retração de 20% em 2017. Como resultado do abandono da atividade, as cotações reagiram a partir de julho de 2018, mas são incapazes de trazer os pecuaristas de volta. A demanda deve retornar aos níveis anteriores apenas em 2020, segundo o Rabobank.

Crédito agrícola
Um dos maiores desafios do setor agropecuário e do governo federal em 2019 é recuperar os produtores que não tem mais acesso ao crédito agrícola oficial. Apenas no ano passado, foram 8,7 mil contratos de custeio a menos. Desde 2014, o número sobe para quase 40 mil.
É uma realidade que afeta, por exemplo, a produção arrozeira gaúcha, com 18% menos contratos em relação a 2017. O dado é atribuído ao crescente endividamento, ocasionado pelos preços baixos na colheita há duas safras. Sem condições de apresentar garantias bancárias, parte dos produtores abandonou a atividade, enquanto os mais persistentes apelaram aos engenhos e outras alternativas.
O vice-presidente da Farsul, Elmar Konrad, entende como solução o fortalecimento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, em que a União apoia de 30% a 40% do valor de contratação. Ele traria mais garantias de adimplência e facilitaria o empréstimo. Atualmente, estão previstos entre R$ 450 milhões e R$ 487 milhões nos próximos três anos, enquanto o setor pede R$ 1,2 bilhão para triplicar a cobertura no campo. Conversas foram iniciadas por Farsul e CNA com a nova ministra da Agricultura, Tereza Cristina.
Outra ideia é repensar o sistema de crédito oficial. “Precisamos liberalizar mais o crédito, atrair open banks, fintechs, investimento estrangeiro, por meio de sistemas de proteção cambiais aperfeiçoados”, avalia Antônio da Luz. “O Plano Safra é quadrado, protetivo a algumas instituições financeiras. Temos que abrir mais esse mercado”. Sobre o Plano Safra, a Farsul cobra ainda a redução da taxa de juros, com base na inflação projetada para o próximo ano (4,2%, abaixo da meta) e a taxa Selic (6,5% a 7% ao ano).
O ano passado também ficou marcado pela retomada nos investimentos no campo gaúcho, com alta de 22%. Foram tomados quase R$ 4 bilhões de janeiro a outubro, sinalizando que os encaminhamentos nas principais feiras, como a Expointer, se confirmaram. Além das melhores condições de crédito, o Sistema Farsul avalia que contribuíram o otimismo com a economia, a melhora na remuneração de algumas culturas agrícolas e o próprio fato de o investimento ter encolhido nos últimos quatro anos. Dessa forma, os agentes teriam ficado mais dispostos a emprestar.
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