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Nº 426 - ANO 33 - MARÇO DE 2019
 
Não vamos brigar por carrapato - Blau Souza*
 
Trabalhar com bovinos sem o stress e as doenças associadas a infestações por carrapato será sempre o ideal. Mas a praga está aí e desde os tempos da Revolução Farroupilha. Prejuízos e gastos para combatê-la têm sido incalculáveis e não há perspectivas que permitam pensar em erradicação próxima, nem dele, nem da tristeza parasitária, sua dependente. Há dez anos, na Salamanca, trabalhamos sem carrapato, num esquema de banhos carrapaticidas programados. O ciclo do parasita é interrompido, os campos ficam livres das larvas e tudo funciona muito bem, desde que não haja contato com gado ou campo infestados. Mas conseguir isso não é fácil, pois as cercas, os aramados, não garantem o isolamento de animais com carrapato das propriedades vizinhas. Problemas? A imunidade à Tristeza é menor no gado não carrapateado e casos da doença podem surgir a cada contaminação. Isso também se reflete na comercialização, quando o gado livre de carrapato, por ser mais suscetível à doença, tem mercado mais restrito, mais relacionado com o abate.
A vontade de mudar para melhor aumenta quando acontecem dias de campo entusiasmantes como o ocorrido na Estância São Crispim, dentro das atividades da Alianza del Pastizal. Lá, em campos nativos e melhorados, vimos novilhas sendo inseminadas aos 14 meses de vida, bem como a repetição, anos seguidos, de ótimos índices de natalidade. É na base desse entusiasmo salutar, que sugiro pequena alteração de manejo para continuar sem carrapato nos bovinos cuidados pelo meu filho Diogo, na Salamanca, ou pelos sobrinhos Adauto e Gustavo, na estância e na cabanha São Crispim. A sugestão nasce como nas conversas de fim de dia com o Fernando Adauto, de que tenho saudade. À beira do fogo e bebericando um bom vinho, isso acontecia com frequência, pois nossas casas eram separadas por apenas seiscentos metros de pampa. A conversa era muita, e pouco o vinho consumido (por vezes o muito e o pouco se invertiam). Sem assunto proibido, nem sempre os ânimos eram pacíficos; mas com bom senso, o amor às raízes e à vida servia de norte para as discussões que, por vezes, viravam crônicas para o Sul Rural. Enfim, voltando ao lado prático, lá vai a sugestão: submeter os animais jovens a infestações de carrapato programadas, em áreas pouco extensas, próximas das sedes das propriedades e bem cercadas. Nelas, será mais fácil revisar toda a lotação do potreiro pelo menos duas vezes ao dia, e assegurar tratamento efetivo, com mínima mortalidade, para os animais que desenvolvam a doença. Isso propiciará vigilância localizada e intensiva, ao invés de revisões gerais que implicam em percorrer grandes distâncias e examinar o gado distribuído ao longo das cercas compartilhadas com vizinhos cujos animais e campos convivem com o carrapato. E será nesses “piquetes de infestação” que será solto o gado adquirido em leilões de fim de semana, por exemplo, e que no momento atual é desembarcado diretamente para tratamento com carrapaticida. A proposta funcionará como mais uma ferramenta dentre as muitas que integram o manual de boas práticas da nossa pecuária. Não implica em despesa extra e visa o aproveitamento mais racional do pessoal das estâncias. Terei convencido os administradores nominados e os leitores da validade da proposta? Creio que sim, e que até haverá mais gente desejando trabalhar sem carrapato, estimulados pelo desejo de assegurar melhores condições de bem estar e de sanidade aos seus animais. Mas se a sugestão não for aceita, valerá como um aceno de boa vontade entre vizinhos, de paz, numa época de radicalizações, em que até o combate ao carrapato pode servir de motivo para separar pessoas. Afinal o parasita surgiu no Rio Grande nas primeiras décadas do século XIX e teria agravado o descontentamento dos criadores gaúchos com o Império, motivo para a Revolução Farroupilha. Se os recursos atuais são insuficientes para erradicá-lo, busquemos soluções válidas contra ele, mas sem brigar uns contra os outros.

*Médico e escritor
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